sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Primórdios do sertão nordestino

Por: Pedro Salviano Filho
(Coluna Histórias da Região - Edição Julho/Agosto 2012 - Jornal de Arcoverde) 

Nesta edição, procura-se observar um sertão nordestino habitado pelos primeiros homens na época do descobrimento e, depois, o início da colonização brasileira pelos primeiros portugueses. Assim, teremos os passos iniciais para, talvez, justificar alguns dos nossos comportamentos contemporâneos.
Todas as fontes da história do território hoje conhecido como Brasil, antes da chegada dos europeus, são arqueológicas (O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história do nosso país. Jorge Zahar Editor.Rio-RJ. 2007. 2ª.  Edição. Por André Prous. Pág.13. Na web http://bit.ly/P6aa9c).
O livro de Gabriela Martin Pré-história do Nordeste do Brasil. (Ed. Universitária da UFPE, 5ª. Edição. 2008 - 434 p. na web em http://bit.ly/LURYic) documenta na pág.66: «Os primeiros homens que chegaram ao Nordeste brasileiro eram, pelos dados que até agora possuímos, como os índios atuais. Racialmente pertenciam a grupos mongoloides como, aliás, todos os habitantes das Américas anteriores à colonização europeia. Dentro das naturais variedades, existe, portanto, uma homogeneidade indiscutível nos diferentes grupos humanos brasileiros, o que identifica todos os índios sul-americanos como oriundos de uma mesma origem. Mas, se os primeiros habitantes já haviam chegado ao Piauí por volta de 50000 anos, poderia tratar-se de grupos pré-mongoloides que evoluíram já nas Américas ou que se extinguiram.
Admite-se que os índios brasileiros chegados ao Nordeste são os descendentes de levas arcaicas, que atravessaram o estreito de Bering alguns milhares de anos antes. Mesmo que, periodicamente, levante-se a conjetura da existência de outras vias de acesso, que poderiam ter dado lugar à chegada na América de grupos humanos em épocas pleistocênicas, nada pode ser provado até o momento».


Tradição Agreste, sub-tradição Cariris-velhos. A Pedra do Tubarão e o Cemitério dos Caboclos, em Venturosa, PE, formam parte da mesma estrutura arqueológica, com antropomorfo isolado e grafismos puros tipo "carimbo", típicos da tradição Agreste (Pág. 276).


Tradição Agreste. Grafismos tipo “carimbo”, frequentes na sub-tradição Cariris Velhos, Pedra da Buquinha, Venturosa, PE. Nordeste do Brasil (Pág. 277).


Tradição Agreste, sub-tradição Cariris Velhos, Sítio Alcobaça, Buíque, PE. Antropomorfos isolados e grafismos puros. Nordeste do Brasil (Pág. 283). Imagens e legendas tomadas do livro de Gabriela Martin Pré-história do Nordeste do Brasil. Ed. Universitária da UFPE, 5ª. Edição. 2008 - 434 p.

No livro Cronologia pernambucana. Subsídios para a história do agreste e do sertão, 1º. Volume. Centro de estudos de história municipal/FIAM – 1982, Nelson Barbalho escreve na pág. 34 – «Os Cariris são os primeiros habitantes conhecidos do agreste e do sertão de Pernambuco. Desse grande povo, cujas origens ficaram aqui rapidamente esboçadas, vêm as nações dos Carapotós, Xucurus, Carnijós, Pankararus, Paratiós, Anchus, Pipipães e mais gentes que dariam vida e movimentação às terras agrestino-sertanejas muitos séculos antes da invasão dos brancos portugueses e dos negros africanos, e, por direito de conquista, seriam os seus mais legítimos donos».
Na pág. 114 do mesmo volume ele registrou: «Em 1º de novembro de 1549, Tomé de Souza, - primeiro governador-geral do Brasil, mordomo-mor de El-Rei,... declara instalada a nova cidade de Salvador ... Tomé de Souza fundava engenhos-de-açúcar e desenvolvia sobremodo a pecuária, introduzindo nas fazendas brasileiras o gado trazido de Cabo Verde. Baseado nos regimentos que o nomearam para o exercício do cargo de governador-geral, proibia a escravização e o saque dos gentios, salvo quando sob licença do governo ou dos respectivos capitães-mores; estabelecia feiras semanais nas vilas e povoados, nas quais os indígenas pudessem concorrer, regularmente, comprando, vendendo ou escambando produtos diversos; autorizava a exploração e povoamento de terras pelo sertão, para o que enviava bergantins pelo rio São Francisco principalmente, seguindo tais expedições com línguas (intérpretes) e guias, pondo marcos nos pontos já descobertos e tomando posse das terras que se descobrissem; não permitia que ninguém penetrasse ou se comunicasse, pelo sertão, de uma para outra Capitania, sem estar prévia e devidamente autorizado; obrigava os capitães, fazendeiros e senhores-de-engenho, para defesa própria e de suas povoações, a armarem-se fortemente e a construírem, nos seus redutos, torres e casas-fortes (de tal obrigação nasceriam o coronelismo brasileiro, a capangagem e, mais tarde, o cangaceirismo nordestino, bem como o uso indiscriminado do bacamarte, do qual adviriam os populares bacamarteiros das caatingas do Nordeste); e, além de outras providências salutares, decidia intervir nas administrações de todas as Capitanias ao longo da costa, visitando-as sistemática e pessoalmente, acompanhado pelo provedor-mor, .... ».
No primeiro século da colonização brasileira, alguns aventureiros escreveram sobre as peripécias aqui vividas. Por exemplo: 1557 - Hans Staden: Viagens e aventuras no Brasil; 1558 - André Thévet: Singularidades da França Antártica; 1567 - Ulrico Shmidel : História verdadeira de uma viagem curiosa feita por U. Shmidel; 1578 - Jean de Léry: Viagem a terra do Brasil. Hans Staden, que aqui esteve por duas vezes, de volta à Europa redigiu uma das primeiras descrições para o grande público sobre os costumes dos nossos índios. Seu livro, VIAGEM AO BRASIL (Versão do texto de Marpurgo, de 1557, por Alberto Loforen, revista e anotada por Theodoro Sampaio, Publicações da Academia Brazileira, 1930), pode ser integralmente lido em  http://purl.pt/151/1/P1.html . Já o filme (1999), que mostra sua segunda viagem ao Brasil, está em: http://bit.ly/McosVm .
Para os leitores que apreciem o assunto e desejem mais informações, interessantes livros com crônicas da terra brasileira daquele século também estão disponíveis para consulta na web: História da Província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, feita por Pedro de Magalhães de Gandavo, editado em Lisboa, em 1576: http://bit.ly/PnaGA0 . De Gabriel Soares e Souza: Tratado Descritivo do Brasil, de 1587: http://bit.ly/R5mc8Y   e Narrativa epistolar de uma viagem e missão jesuítica pela Bahia, Porto Seguro, Pernambuco, Espírito Santo, Rio de Janeiro, S. Vicente, (S. Paulo), etc. desde o ano de 1583, do Padre Fernão Cardim:  http://bit.ly/OHGLpu .
Em Viagem incompleta – Formação – Histórias: A Experiência brasileira (1500 - 2000). Editora Senac-SP. 3ª Edição. 2009 – Organizado por Carlos Guilherme Mota (Na web em http://bit.ly/SXnHEy  - Aziz Nacib Ab´Sáber, analisando as «Incursões à pré-história da América tropical», na pág. 42 diz:  «Os povos de língua tupi-guarani que vasculharam e fizeram migrações sucessivas e progressivas por milhões de quilômetros do território tropical e subtropical da América do Sul caracterizam-se por forte adaptabilidade aos domínios de florestas, ao uso dos rios, incluindo moradias e tabas construídas em pontos de diques marginais e sítios de baixos terraços. Desalojando, finalmente, os homens dos sambaquis fixados em beira de restingas, adaptados a viver da pesca e coleta de "frutos do mar". Expulsando e sobrepondo-se belicosamente aos viventes dos sistemas lacunares estuarinos, os tupis incorporaram pela primeira vez, na pré-história brasileira, toda a faixa litorânea frontal do país, tendo por preferência barras de rios e riachos encostados em morretes ou maciços costeiros florestados. E chegaram até a Amazônia.
Foi neste contexto de ocupação, bastante generalizada dos povos de língua tupi-guarani, que os colonizadores caucasoides, procedentes da Europa Ocidental, entraram em contato com os povos indígenas de origem mongoloide. Um contato que redundou em vasta, complicada e desumana letalidade. Ainda que por alguns séculos o país tenha vivido uma plena proto-história. Do que resultou uma trágica eliminação étnica, a par com uma miscigenação gradual - envolvendo índios e negros, forjadores de um povo diversificado e maravilhoso, permanentemente pressionado pela insensibilidade do invasor, alheio às desigualdades sociais e aos atributos eternos da ciência e da cultura.
Dominados por latifundiários, comandados por elites insensíveis e uma tecnoburocracia incompetente e pouco criativa. Por um capitalismo hipócrita e uma nefasta pseudoglobalização».
Para complementar essas observações sobre a origem do povo brasileiro, recorremos ao antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), na sua obra final, publicada em 1995, pouco antes da sua morte: «O povo brasileiro. A formação e o sentido do Brasil» (Companhia das Letras, São Paulo-SP, edição de 2008, ver obra completa em http://bit.ly/Qjjnz9 ). Este livro trata das matrizes culturais e dos mecanismos de formação ética e cultural do povo do Brasil, onde o antropólogo aborda a história da formação do povo brasileiro, sua origem mestiça e a singularidade do sincretismo cultural que dela resultou.
                Na página 53 podemos ler:  «Em poucas décadas desapareceram as povoações indígenas que as caravelas do descobrimento encontraram por toda a costa brasileira e os primeiros cronistas contemplaram maravilhados. Em seu lugar haviam se instalado três tipos novos de povoações. O primeiro e principal, formado pelas concentrações de escravos africanos dos engenhos e portos. Outro, disperso pelos vilarejos e sítios da costa ou pelos campos de criação de gado, formado principalmente por mamelucos e brancos pobres. O terceiro esteve constituído pelos índios incorporados à empresa colonial como escravos de outros núcleos ou concentrados nas aldeias, algumas das quais conservavam sua autonomia, enquanto outras eram regidas por missionários».             
Na página 68: «No Brasil, de índios e negros, a obra colonial de Portugal foi também radical. Seu produto verdadeiro não foram os ouros afanosamente buscados e achados, nem as mercadorias produzidas e exportadas. Nem mesmo o que tantas riquezas permitiram erguer no Velho Mundo. Seu produto real foi um povo nação, aqui plasmado principalmente pela mestiçagem, que se multiplica prodigiosamente como uma morena humanidade em flor, à espera do seu destino. Claro destino, singelo, de simplesmente ser, entre os povos, e de existir para si mesmos».
                Dez vídeos que compõem os respectivos capítulos desse interessante livro podem ser acessados:

Matriz Tupi - Cap.1: http://bit.ly/N2gWyI  
Matriz Lusa:- Cap. 2: http://bit.ly/NUr7pS  
Matriz Afro – Cap. 3: http://bit.ly/PmpAWW
Encontros e desencontros  – Cap. 4: http://bit.ly/MZszIJ
O Brasil crioulo - Cap. 5: http://bit.ly/R9fHlI
O Brasil sertanejo – Cap. 6: http://bit.ly/QfjTik
O Brasil caipira – Cap. 7: http://bit.ly/MRNkrr
O Brasil sulino – Cap. 8: http://bit.ly/OE8pFC
O Brasil caboclo – Cap. 9: http://bit.ly/R9g8wm
A invenção do Brasil – Cap. 10: http://bit.ly/NJzIyu

Mais artigos desta coluna: http://bit.ly/ysUcSY

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