segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Pesquisa da Fundaj apresenta um Nordeste Emergente

Todos os Estados da região apresentam iniciativas e características de prosperidade


Foto: Iatã Cannabrava/Fundaj


FONTE: Adriana Guarda - NE10


Na orla de Fortaleza o Nordeste parece Miami. Fortalezas verticais inundam a beira mar. Espigões de vidros reluzentes espelham o desejo de exibir uma riqueza emergente. A antropóloga carioca Ciema Mello batizou de “miamização” esse fenômeno de transformações no estilo de vida na capital cearense. O cenário é parte de um Nordeste que se opõe aos estereótipos de uma região engessada, há séculos, na condição de “primo pobre da nacionalidade”. Com proposta de desfazer esse mito, a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) realizou a pesquisa Nordestes Emergentes. O trabalho será apresentado durante um seminário, de amanhã até quarta-feira, na Fundaj de Casa Forte. 

Dez duplas de pesquisadores e fotógrafos se distribuíram pelos nove Estados da região para mostrar esse Nordeste em fervura. Realizada pela Diretoria de Memória, Educação, Cultura e Arte da Fundaj, comandada por Silvana Meireles, e com aval do presidente Fernando Freire, a pesquisa começou a ser planejada em 2010. “Olhamos para o Museu do Homem do Nordeste (Muhne) e constatamos que o nordestino estava representado apenas pelos cangaceiros, fanáticos, benzedeiras e expressões dos ritmos populares. Precisávamos corrigir esse equívoco, porque existe um outro Nordeste borbulhando”, afirma Ciema, que coordena a pesquisa e o Museu.

Para encampar o trabalho, a Fundaj convidou como consultor o fotógrafo e antropólogo Milton Guran. “Era necessário atualizar essa representação museográfica do Nordeste, que não é só chapéu de couro e manteiga de garrafa. A Fundaj é um dos maiores centros de pesquisa do País está inovando com essa pesquisa”, avalia Guran. A ele coube a tarefa de pinçar o time de dez grandes nomes da fotografia nacional. 

“Depois da pesquisa de campo entendi que Miami e Fortaleza são separadas apenas por metáforas. O crescimento imobiliário, a auto-exposição, as viagens ao exterior para acompanhar as tendência, as vitrines de luxo, o culto ao corpo são parte dessa nova realidade. Filhos de empresários acompanham a trajetória familiar”, destaca a socióloga Rúbia Lóssio, que realizou trabalho de campo acompanhada pelo fotógrafo paulista Iatã Cannabrava.

A empresária Ivana Bezerra de Menezes representa essa nova geração. Filha de Ivan Bezerra de Menezes (dono da Têxtil Bezerra de Menezes, uma dos maiores companhias da América Latina), ela migrou para a indústria do turismo. O grupo investiu cerca de R$ 10 milhões na construção do Hotel Sonata de Iracema. “Esse era um desejo do meu pai, que realizei. O hotel completou 8 anos e vamos investir em outros dois, que devem entrar em operação até 2016”, adianta. 

O presidente do Grupo JCPM, João Carlos Paes Mendonça, percebeu a efervescência do Nordeste num tempo em que o Brasil não cobiçava a região. “Muito se fala sobre a transformação da Região Nordeste. Na verdade, é um mercado que sempre existiu, mas era ignorado por parte das indústrias de grande porte instaladas prioritariamente no Sudeste. Com alguns investimentos estruturadores e a necessidade de abertura de novos mercados, muitas delas passaram a prestar mais atenção à região, implantando unidades. Isso gerou novos empregos e, consequentemente, renda. A partir desse momento, muito se falou da transformação do Nordeste. Considero que hoje a região é mais bem atendida, mas que sempre existiu como mercado consumidor. Prova desse potencial é que o Bompreço se tornou a terceira maior rede de supermercado do País atuando apenas no Nordeste”, observa. Dos 12 shoppings do grupo no País, dez estão no Nordeste. Há mais de 30 anos o grupo ficou conhecido pelo sentimento expresso na frase “orgulho de ser nordestino”. 

Na fronteira entre a antropologia e a história, a pesquisa Nordestes Emergentes também foi desvendar o Vale do Cariri, cunhado pela pesquisadora Ciema Mello como a Nova Califórnia. Nas andanças com a fotógrafa Fernanda Chemale, descobriu uma região em ebulição. “O Cariri está vivendo sua revolução burguesa à exata semelhança das que viveram, em outros séculos, as cidades–estado italianas e as cidades da Liga Hanseática, enriquecidas pelo comércio de bens e dos serviços demandados por aqueles que vinham a elas atraídos pelo comércio de especiarias”, compara. As romarias na terra do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, fizeram explodir os setores de comércio e serviços. Shopping de alto padrão, concessionárias e lojas se multiplicaram. 

Nesse novo Cariri, na cidade de Nova Olinda, está o mestre-artesão Espedito Seleiro, que emergiu junto com o Nordeste. Seu pai ficou conhecido por costurar peças em couro para o bando de Lampião. Ele aprendeu o ofício de confeccionar selas e gibões. Com as vaquejadas minguando, em 1985 começou a produzir acessórios e virou uma grife. “Já fiz uma coleção de sapatos e bolsas para a Cavalera e a Cantão”, conta, orgulhoso. Também no Cariri surgiu o coletivo Café com Gelo. Cinco amigos se reuniram para fotografar e realizar performances. Para a pesquisa fizeram uma representação da libélula, que é um dos símbolos da região. No Museu de Paleontologia Santana do Cariri está o fóssil da libélula de 140 milhões de anos. 

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