quinta-feira, 14 de abril de 2016

As tamareiras do DNOCS de Arcoverde

Por Pedro Salviano Filho
(Coluna Histórias da Região - edição N. 290 de março/abril de 2016 - Jornal de Arcoverde)



As tamareiras do DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra Secas) foram plantadas em 1940 (dado fornecido pela família Saboia) por orientação do engenheiro Francisco Saboia. Fotos: Nov.2015 - PSF 

Assim como muitos arcoverdenses, a primeira vez que vi uma tamareira foi no DNOCS, na avenida Antônio Japiassu. Aquelas belas palmeiras com seus cachos de tâmaras amarelas. Elas estão ali há quase 80 anos! Mas o que elas têm a ver com a nossa história?
Já vimos (em “A Great Western”,goo.gl/qXlTJR) que o primeiro fator de desenvolvimento de Arcoverde foi a chegada da ferrovia (1912). O segundo foi o estabelecimento do DNOCS (inicialmente IFOCS), que favoreceu muitas obras (estradas, açudes, campo de aviação etc.) em toda a região.Foi em 1932, por ocasião de intensa seca que acometia toda a área que a sede daquele órgão federal foi implantada em nossa cidade. Durante vários anos foi chefiada pelo engenheiro Dr. Francisco Saboia. Assim, resgatemos um pouco desta história, entrelaçando a característica planta do semiárido e os trabalhos contra a seca.

Sobre tâmaras
A multiplicação da tamareira pode ocorrer pelas sementes e também por rebentos. Em escavação na fortaleza do rei Herodes uma semente de tâmara encontrada foi plantada (2 mil anos depois), germinou e transformou-se em plantagoo.gl/X3Dm65:«Uma semente com cerca de 2.000 anos encontrada no deserto da Judéia foi plantada por cientistas israelenses e germinou, segundo artigo publicado na revista especializada Science nesta sexta-feira. [Isso a tornaria a semente mais antiga do mundo a germinar de que se tem conhecimento].A semente de tâmara foi encontrada em escavações em 1963, na antiga fortaleza do rei Herodes, em Masada, perto do Mar Morto. Na ocasião, os cientistas encontraram um grupo de sementes em temperatura ambiente com a intenção de estudá-las mais a fundo.»

1912 - O botânico sueco Alberto Löfgren apresentou um livreto, "A tamareira e seu cultivo", de nove páginas, da Inspetoria de Obras Contra as Secas,goo.gl/6VGnyM.
1941 - A tamareira. Pimentel Gomes, 1941, RJ, pág. 2: «A introdução da tamareira no Brasil deve ser muito antiga. Certamente as primeiras plantas originaram-se das sementes provenientes de tâmaras importadas. Em 1915 vi, em quintais da cidade de Sobral, no Ceará, tamareiras já bem antigas: deveriam ter, algumas, bem mais de vinte anos. Encontravam-se algumas em lugar alto, de solo escasso e subsolo pedregoso, e não eram irrigadas, mau grado estivessem sujeitas, anualmente, a estiadas completas, de seis a oito meses. Em 1924, como agrônomo e encarregado da Fazenda de Sementes “Três Lagoas”, ainda no município de Sobral, encontrei, à jusante de um açude pequeno, existente nessa propriedade, um grupo de tamareiras adultas, velhas de dezenas de anos[...]».
1986 -Viabilidade do cultivo da tamareira irrigada no Vale do São Francisco,goo.gl/XeSf1J
1989 – Instruções para produção de mudas e plantio de tamareiras. Manual em pdf,goo.gl/ZKu6pu.

Sobre DNOCS
10-01-1933 – Jornal do Recife, 1ª col.: goo.gl/1ROOgb ,«Sobre esse importante melhoramento de que acaba de ser dotado o futuroso município de Rio Branco, neste Estado, recebemos dali as seguintes informações telegráficas. "Com solenidade, acaba de ser inaugurado, novo prédio correio telégrafo [...]. Solenidade teve presença engenheiro Francisco Saboya, chefe serviços ações funcionários federais estaduais municipais famílias e grupo musical Independentes.»
19-4-1933 - Diário da Manhã, Recife-PE, 4ª  col.tinyurl.com/hc8fbjb,«A Comissão de Estudos das Obras do Nordeste. O Tribunal de Contas registrou um contrato com o sr. Francisco Saboya de Albuquerque para chefiar a comissão de estudos sobre as obras das secas em Pernambuco e Alagoas.»

«Os drs. Francisco Saboya e Quirino Simões quando falavam ao nosso representante. 7-6-1934- Diário da Manhã».

7-6-1934- Diário da Manhã, 1ª col.: tinyurl.com/gvko4ux,«O plano dos trabalhos a serem executados, este ano, em Pernambuco, pela Inspetoria de Obras Contra as Secas. Sobre os trabalhos que vão ser executados nos nossos sertões, declarou-nos o chefe da Comissão de Secas, dr. Francisco Saboya: - Para este ano foi organizado o seguinte plano para Pernambuco: conclusão de 3 açudes em construção, o Quebra Unhas, em Floresta, o Parnamirim, em Leopoldina e o Cachoeira em Alagoa de Baixo, com a capacidade total de 15 milhões de metros cúbicos; estudos e construção de açudes particulares, dentre os quais destaca-se o do Saco, feito de cooperação com o governo do Estado e para cujos trabalhos a Inspetoria concorrerá com 75% do orçamento [...]».

6-7-1938 - Diário da Manhã, 1ª col.: tinyurl.com/gs3922y,«A visita do Sindicato de engenheiros às obras da Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas. Em excursão de mil e trezentos quilômetros.[...] rumaram a Rio Branco, onde está localizado e escritório técnico das obras, sob a direção do sr. Francisco Saboya, chefe da comissão [...].»

1961 - O Município de Arcoverde, Teófanes Chaves Ribeiro, pág.14: «Departamento das Secas - O Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, 3º Distrito, sediado nesta cidade, muito tem contribuído para o progresso do município. Foi, em junho do ano de 1932, no rigor da seca que assolava o Nordeste, que o governo tomou a seu cargo amparar a região pernambucana atingida por esta situação climatérica, criando em Arcoverde, então Rio Branco, um serviço subordinado à Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas. Inicialmente os trabalhos foram dirigidos pelo engenheiro Francisco de Paula Pereira de Miranda. Em seguida, isto é, em julho daquele mesmo ano foi transmitido  o cargo ao engenheiro Francisco Saboia de Albuquerque. Posteriormente, a sede desses serviços passou a denominar-se Comissão de Estudos e Obras nos Estados de Pernambuco e Alagoas, e foi fixada em Arcoverde graças ao empenho do governo revolucionário do município, junto ao então ministro José Américo de Almeida.

Foram grandes as perspectivas abertas com este acontecimento aos destinos de Arcoverde.

Os trabalhos desenvolvidos pela Inspetoria, que em construção de estradas de rodagem, que em perfuração e instalação de açudes públicos e particulares, têm constituído uma fonte de realizações de inestimável valor para o município, bem como para outras zonas castigadas pelo rigor das longas estiagens.

Os seus primeiros anos foram marcados por trabalhos intensos, muitos dos quais tiveram como estaca inicial Arcoverde; pois daqui partiram as construções das estradas de rodagem: Arcoverde-Mimoso-Caruaru, Arcoverde-Pedra, Arcoverde-Algodões-Custódia-Serra Talhada-Salgueiro-Parnamirim. E assim esses trabalhos iam-se distanciando em procura das metas a serem atingidas, previamente estabelecidas no plano rodoviário, na zona delimitada pelo polígono das secas.

Após 17 anos de constantes realizações, essa repartição conseguiu levar as cidades mais longínquas do interior do Estado de Pernambuco a sua linha tronco, contribuindo para aumentar consideravelmente o intercâmbio comercial entre o Sertão e a Capital, sendo Arcoverde o ponto de comunicação por excelência entre as duas zonas.

O Departamento de Secas é muito bem instalado. Tem construída a sua sede própria em prédio magnífico, o mais importante da cidade. Além disso possui ótimas oficinas mecânicas; fundição, fornalha, armazéns para posto de assistência médica bem aparelhados e um serviço de tratamento d´água pelo sistema “permitite”. Convém salientar que foi no ano de 1946, que a Comissão de Estudos e Obras no Estado de Pernambuco e Alagoas passou a 3º Distrito – por sinal o único do Departamento que se acha sediado no interior do Estado.»

1972 - Minha cidade, minha saudade. Recife-PE. Luís Wilson, pág. 451:
«Francisco Saboya de Albuquerque (minibiografia). O incidente entre o visconde de Saboya e o conde de Gobineau

Entre os homens de bem que viveram, no passado, em Rio Branco, não houve, talvez, uma figura maior que a do Dr. Saboya. Engenheiro das Obras Contra Secas durante 10 ou 15 anos, profissional hábil, amigo de políticos e de homens influentes em todo país, não possuía até há pouco, no Rio de Janeiro, onde reside (e não possui, parece-me que ainda hoje), uma casa ou um apartamento de sua propriedade.

Evidentemente, não há na pobreza nenhum atrativo, nem pobreza recomenda ninguém. Se, no entanto, é recomendável para um homem ter tido oportunidade de ser rico e, para não ser desonesto, continuar pobre, nenhuma pobreza é mais digna de admiração do que a do Dr. Francisco Saboya de Albuquerque, filho de Francisco Esperidião Saboya de Albuquerque, nascido em Sobral, no Ceará, a 18 de novembro de 1894.

Francisco Saboya fez o seu curso primário e secundário no Colégio Anchieta, no Estado do Rio de Janeiro. Ingressou depois na Escola Politécnica, hoje Escola Nacional de Engenharia, pela qual se diplomou Engenheiro Civil, em 1920, especializando-se em obras rodoviárias, represamento d´água, irrigação etc... Ainda estudante, em 1919, foi trabalhar, como auxiliar técnico, nos Serviços da então Inspetoria Federal de Obras Contra Secas.

Formado, ocupou o posto de “auxiliar de Projeto de Grandes Barragens de Alvenaria”, daquele Serviço, na seção dirigida pelo Engenheiro Regional Ryves. Depois, foi Engenheiro-Residente da Inspetoria, no Rio Grande do Norte, passando a trabalhar, em 1923-1924, na firma “Norton Griffith Co. Ltd.”, contratante da construção do porto de Fortaleza. Como Engenheiro-chefe das obras do viaduto daquele porto, que projetou e construiu, trabalhou nos anos de 1925-27, assumindo, em seguida, a direção dos serviços ferroviários da firma “Saboya Albuquerque & Cia”, na Paraíba e Rio Grande do Norte, de 1927 a 1931.

Em 1932 voltou para a Inspetoria Federal de Obras Contra Secas, ocupando o posto de Engenheiro-chefe em Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte (a sede era, então, em Rio Branco). Em 1948, como Engenheiro Assistente, foi para a Companhia Hidroelétrica do São Francisco, em Paulo Afonso, Estado da Bahia.

Em 1949 era Engenheiro-chefe do Serviço do Departamento Nacional de Estradas de Rodagens em Pernambuco, sendo nomeado, em 1951, Diretor Geral do Departamento Nacional de Obras Contra Secas, no Rio de Janeiro.

Em Rio Branco, viveu o Dr. Saboya durante 10 ou 15 anos, não parando um minuto nas estradas de rodagem, com o negrinho Alexandre, em um automóvel, a 80 oi 100 quilômetros por hora.

Um tio-avô do Dr. Saboya foi o célebre e conhecido cirurgião Vicente Cândido de Figueiredo Saboya, médico da Corte, parteiro da Princesa Isabel, a Redentora, amigo pessoal de S. Majestade, o Imperador D. Pedro II, Conselheiro, Visconde e, depois, Barão de Saboya, professor, diretor e, mais tarde, ainda, Diretor Honorário da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, título até hoje não mais conferido sequer a Aloísio de Castro.

Quando, em 1869, esteve no Rio de Janeiro a grande trágica italiana Adelaide Ristori, ocorreu o incidente, que tornou o Visconde de Saboya ainda mais famoso em todo o país.

O Visconde de Saboya, um amante da excelsa arte, estava com a esposa, no teatro, em uma das noites gloriosas da temporada de Adelaide Ristori, “quando apressado e mal humorado cavalheiro, na ânsia de alcançar a rua, os atropelou, jogando a senhora no solo. Revoltado, Saboya agarra, violentamente, o grosseirão belo gasnete e, ali mesmo, no movimentado saguão do teatro, aplica-lhe alguns safanões e bofetadas” (v.Achiles Ribeiro de Araújo, “O Visconde de Saboya” Editora Pongetti, Rio de Janeiro, 1971).

O homem a quem Saboya esbofeteara era o sábio francês Joseph Arthur Gobineau, Conde de Gobineau (na época, Ministro da França no Brasil), amigo de D. Pedro II e autor, entre outras obras, de “Três Anos na Ásia (1859), “Tratado das Escrituras Cuneiformes! (1864), “As Religiões e as Filosofias da Ásia Central” (1865), “História dos Persas” (1869) e “História de Ottar Jari, o pirata Norueguês” (1879).

No dia seguinte ao do incidente, enviou o diplomata três emissários a Saboya, mandando-lhe dizer do seu desejo de bater-se com ele em duelo. Saboya respondeu que “tal farsa” era proibida em nosso país, e considerava o incidente da véspera encerrado com os safanões e bofetadas do saguão do teatro.

O episódio e a atitude de Saboya, recusando o duelo, aumentou a aversão do Conde Gobineau pelo Brasil, para quem, a partir daquela data, ‘a exceção do Imperador, “não havia ninguém, neste deserto povoado de patifes”.

O conhecido diplomata foi quem deu lugar a que fundassem na Alemanha, em 1870, uma “associação gobiniana”, para a difusão de suas ideias, das quais cada vez se aproximaram mais as dos antropo-sociólogos Ammon, Lapouge, Wagner e (no dizer daqueles que jamais o compreenderam) do próprio teórico do “Super-Homem”, Nietzsche, repousando na concepção de uma raça superior como fator fundamental da História, favorecendo depois a sinistra aventura de Hitler, ou aos voos do orgulho alemão, com a sua fé nos dolicocéfalos louros germânicos e o sonho de domínio absoluto do mundo.

O incidente entre Saboya e o Conde de Gobineau tenho a impressão de que foi encerrado, com o Imperador D. Pedro II solicitando, amigavelmente, ao diplomata que voltasse para França.

O Visconde de Saboya (em cujas veias corria o sangue da primeira Rainha de Portugal, dona Mafalda de Saboya, esposa de Afonso Henriques), morreu em 1909.

O dr. Francisco Saboya de Albuquerque, no dia 8 de dezembro de 1925 casou com Maria do Carmo Padilha, filha de José da Rocha Padilha (antigo conferente da Alfândega no Recife e em Santos e de sua esposa. Dona Teresa da Rocha Padilha. Todos de Fortaleza, no Ceará.

Os Padilhas parece descenderem de dois irmãos portugueses que vieram para o Brasil no século XVIII ou XIX. Um ficou no Ceará, dando origem aos Padilhas daquele estado. O outro veio para Pernambuco e foi o tronco dos Padilhas de Buíque, de Afogados de Ingazeira etc.

São filhos do casal Francisco Saboya:

1º - Carlos José Padilha Saboya, nascido em Fortaleza a 9 de fevereiro de 1927. Estudante de Engenharia, morreu a 8 de fevereiro de 1953.

2º - Fernando Padilha Saboya de Albuquerque, nascido em Fortaleza a 11 de fevereiro de 1928. Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco, em 1951. Casou com Ana Maria Cabral de Melo, filha do dr. Paulo Cabral de Melo e de sua esposa, dona Ainda Araújo Cabral de Melo. Sucessão: Maria Adriana, Maria Clara, Fernando e Maria Célia. Fernando é médico, no Recife, há alguns anos.

3º - Francisco Saboya de Albuquerque Junior, nascido no Rio de Janeiro no dia 21 de junho de 1929. Formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, em 1955. Cirurgião do Hospital Regional de Arcoverde desde 1959. É também cirurgião do INPS, em Rio Branco. Casou com dona Maria Dalvanira de França, filha de Luís de França Monteiro Sobrinho (falecido em 1958) e de sua esposa, dona América Galvão de França. Descendentes: Carlos José, Luís Fernando, Maynard, Francisco Saboya de Albuquerque Neto e Maria Teresa, “Chiquinho” é um príncipe, como os irmãos.

4º - Ricardo Saboya de Albuquerque. Nasceu no Rio de Janeiro a 20 de setembro de 1932. É casado com Maria Helena, filha de Euclides Siqueira e Maria Amália. Sucessão: Maria Inês, Aline Teresa, Ana Maria e Ricardo.

5º - Eduardo Saboya de Albuquerque, nascido no Recife, no dia 29.10.1933. Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, em 1962. Solteiro. É cirurgião do Pronto Socorro, no Rio de Janeiro.

Carlos, Fernando, “Chiquinho” e todos os filhos de Dr. Saboya, fizeram o curso primário em Rio Branco. Aqueles três foram alunos do prof. Josué e, depois, de dona Laura e dona Lídia, na Escola Monsenhor Fabrício, que não possuía móveis naquela época. Cada garoto que levasse sua cadeirinha para a Escola todos os dias. Mais tarde, os filhos de Dr. Saboya e dona Maria do Carmo estudaram o curso secundário no Colégio Nóbrega, no Recife.»

01/11/1973 – Diário Oficial, 3ª col.: tinyurl.com/z9ookq4 ,«Requerimento 2436  [falecimento de Francisco Saboya de Albuquerque]  [...]voto de profundo pesar pelo falecimento do sr. Francisco Saboya de Albuquerque, ocorrido no dia 14 do corrente, no estado da Guanabara. O extinto era engenheiro de nomeada, tendo exercido vários cargos no DENOCS-CHESF e DNER.»

Visconde de Saboya, Vicente Cândido de Figueiredo Saboya  (13-4-1836 a18-3-1909). Foto – divulgação.

1978 - ROTEIRO DE VELHOS E GRANDES SERTANEJOS Vol. II. Luís Wilson,pág. 581
«Francisco Saboya de Albuquerque (Dr. Francisco Saboya)

Homem probo, sério, respeitável, foi durante cerca de 15 anos (a partir de 1932), engenheiro chefe das Obras Contra Secas, em Arcoverde (naquela época ainda Rio Branco), que era, então, a sede daquele Serviço nos Estados de Pernambuco, Paraíba, Alagoas e Rio Grande do Norte.

Saboya era um gigante em nossas estradas, que começaram a ser construídas naquele ano, vivendo em um automóvel, a 100 quilômetros por hora. Não havia até então, na realidade, estradas no Sertão.

Foi um tio-avô de Saboya, o célebre e cirurgião Vicente Cândido de Figueiredo Saboya, médico da Corte, parteiro da Princesa Isabel (a Redentora), amigo pessoal de S. Majestade, o Imperador D. Pedro II, Conselheiro, Barão e depois Visconde de Saboya, professor, diretor e, mais tarde, ainda, “Diretor Honorário da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro”,(“título até hoje não mais conferido sequer a Aloísio de Castro”), e o não menos célebre francês Joseph Arthur Gobineau, que ocorreu em 1869, durante um recital da grande trágica italiana Adelaide Ristori, o mais famoso incidente do Rio de Janeiro, naquela época.

Gobineau (então Ministro da França no Brasil), à saída do teatro, apressado e mal-humorado, na ânsia de alcançar à rua, derruba a senhora do Visconde que “revoltado, agarra o grosseirão pelo gasnete, ali mesmo, no movimentado saguão do teatro e aplica-lhe alguns safanões e bofetadas” (v.Achiles Ribeiro de Araújo, “O Visconde de Saboya” Editora Pongetti, Rio de Janeiro, 1971).

O conhecido diplomata, amigo também de D. Pedro II e autor, entre outras obras, de “Três Anos na Ásia (1859), “Tratado das Escrituras Cuneiformes! (1864) e “As Religiões e as Filosofias da Ásia Central” (1865), no dia seguinte envia três emissários a Saboya, mandando-lhe dizer do seu desejo de bater-se com ele em duelo. O Barão responde-lhe que tal farsa “era proibida em nosso país, e considerava o incidente da véspera encerrado com os safanões e bofetadas do saguão do teatro”, voltando Gobineau à França por solicitação amigável do Imperador D. Pedro II.

Francisco Saboya de Albuquerque nasceu, no entanto, no dia 18.11.1896 em Sobral (Estado do Ceará) e morreu no Rio de Janeiro dia 14 de outubro de 1978, em seu apartamento à Rua São Clemente no 650, em Botafogo, sendo sepultado no Cemitério de São João Batista. Seus pais foram Ernesto Esperidião Saboya de Albuquerque e sua esposa D. Aline Coelho Saboya sw Albuquerque.
Fez o curso primário e secundário no Colégio Anchieta (Estado do Rio de Janeiro), ingressando depois na Escola Politécnica, hoje Escola Nacional de Engenharia, pela qual se diplomou engenheiro civil em 1920, especializando-se em obras rodoviárias, represamento d'água e irrigação.

Ainda estudante, em 1919, foi trabalhar como auxiliar-técnico nos serviços da então Inspetoria Federal de Obras Contra Secas.

Formado, ocupou o posto de auxiliar de Projetos de Grandes Barragens de Alvenaria daquele Serviço, na seção dirigida Belo engenheiro ReginalRyves. Depois, foi engenheiro-residente da Inspetoria no Rio Grande do Norte, passando a trabalhar em 1823-1924 na firma Norton Griffith Co. Ltda., contratante da construção do porto de Fortaleza. Como engenheiro-chefe das obras do viaduto daquele porto, que projetou e construiu, trabalhou nos anos de 1925-1927, assumindo, em seguida, a direção dos serviços ferroviários da firma Saboya Albuquerque & Cia., na Paraíba e Rio `Grande do Norte, de 1927 a 1931.

Em 1932 voltou para Inspetoria Federal de Obras Contra Secas, ocupando o posto de engenheiro-chefe em Pernambuco, Paraíba, Alagoas e Rio Grande do Norte (com sede em Arcoverde, naquela época, Rio Branco). Em 1948 foi para a Companhia Hidro Elétrica do São Francisco em Paulo Afonso (Estado da Bahia), como engenheiro-assistente.

Em 1949, engenheiro-chefe do Serviço de Departamento de Estradas de Rodagens em Pernambuco, sendo nomeado, em 1951, Diretor Geral do Departamento Nacional de Obras Contra Secas, no Rio de Janeiro.

Casou no dia 08.12.1925 com D. Maria do Carmo Padilha, filha de José da Rocha Padilha (antigo conferente da Alfândega no Recife e em Santos) e de sua esposa D. Teresa da Rocha Padilha, ambos de Fortaleza, Estado do Ceará. São filhos do casal:

1.° - Carlos José Padilha Saboya, nascido em Fortaleza a 09.02.1927. Estudante de Engenharia, morreu a 08.02.1953. Fez o curso primário em Rio Branco (como todos os seus irmãos), primeiro com o professor Josué, e depois com D. Laura e D . Lídia, na Escola Monsenhor Fabrício, vizinha ao velho Cine Rio Branco, na atual Av. Cel. Antônio Japyassu. Mais tarde, estudou o curso secundário (também como os outros irmãos) no Colégio Nóbrega, no Recife.

2.° - Fernando Padilha Saboya de Albuquerque, nascido em Fortaleza a 11.02.1928. Formado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco em 1951, casou com Ana Maria Cabral de Melo, filha do Dr. Paulo Cabral de Melo e de sua esposa D. Aída Araújo Cabral de Melo. Sucessão : Maria Adriana, Maria Clara, Fernando e Maria Célia. É hoje cirurgião de nomeada no Recife.

[Francisco Saboya – Crédito: Ricardo Fernandes DP/D.A Press- goo.gl/k8uYcw]

3.° - Francisco Saboya de Albuquerque Junior, nascido no Rio de Janeiro a 21.06.1929, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil em 1955. Cirurgião do Hospital Regional de Arcoverde desde 1959 e do Instituto Nacional de Previdência Social (I .N .P .S .) . Casou com Maria Dalvanira de França, filha de Luís de França Monteiro Sobrinho (falecido em 1958) e de sua esposa D. América Galvão de França. Descendentes: Carlos José, Luís Fernando, Maynard, Francisco Saboya de Albuquerque Neto e Maria Teresa.

4.° - Ricardo Saboya de Albuquerque, nascido no Rio de Janeiro a 23.09.1932, casou com Maria Helena, filha de Euclides Siqueira de Araújo com Maria; e Maria Amália (ele, filho do Cel. Ernani Gomes e ela do casal Augusto Campos). Sucessão: Maria Inês, Aline Teresa, Ana Maria e Ricardo.

5.° - Eduardo Saboya de Albuquerque, nascido no Recife a 29.10.1933. Formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Brasil. Casado, com sucessão, é cirurgião do Hospital do Pronto Socorro no Rio de Janeiro.»

Do livro “Roteiro de Velhos e Grandes Sertanejos, II volume, Luís Wilson, pág. 585:
«Na foto (tenho a impressão que de 1932, do primeiro avião que pousou em Rio Branco, o terceiro (à direita), de branco, em primeiro plano) é o Dr. Francisco Saboya.»

1995 - Arcoverde. História político-administrativa, Brasília-DF. Sebastião Calado Bastos. Pág. 71:  «[...]devido, porém, à dimensão do flagelo [seca de 1932], o Estado não teve condições de arcar com todas as despesas, razão pela qual apelou ao Governo Federal.

Felizmente, reconheceu o governo central a necessidade de intervir, encampando os serviços já existentes e, mais, ampliando-os.

Criou, de imediato, uma Comissão de Estudos e Obras nos Estados de Alagoas e Pernambuco, a qual ficou subordinada à Chefia do 2º Distrito da IFOCS (Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas). Importante citar que esta Comissão teve sua sede instalada em Rio Branco. Seu primeiro chefe foi o engenheiro-residente Pereira de Miranda. Em vista de uma promoção, esse profissional permaneceu em Rio Branco muito pouco tempo, sendo substituído pelo engenheiro Francisco Saboya (1896-1973). É de se notar que, até então, não era definitiva a escolha de Rio Branco para sediar essa Comissão.

Cogitava-se, na ocasião, da transferência para outro município da sede da IFOCS. Pesqueira, inclusive, oferecia facilidades, com doação de terreno e tudo o mais que se fizesse necessário para que ali fosse instalada a Repartição. Não resta dúvida que aquele município se apresentava como forte candidato, tendo em vista a pujança de seu comércio e a força de sua indústria que florescia.

O Dr. Luís Coelho, diante dessa perspectiva, aguardava uma oportunidade para lutar no sentido de manter a sede em Rio Branco, visto que a sua perda para outro município iria representar enormes danos para a cidade, haja vista que há dois anos mantinha o município a sede dessa Inspetoria.

Por sorte, em março de 1933, Rio Branco foi visitado pelo então Ministro da Viação, o paraibano José Américo de Almeida (1887-1980) que verificava in loco, os efeitos da seca que atingira a região nordestina. [17/03/1933, Jornal do Recife, 7ª col., goo.gl/33qfBU :«O sr. José Américo ministro da viação, em terras de Pernambuco . Rio Branco, 16 - O ministro José Américo chegou ontem a esta cidade, de volta da zona do Cariri, acompanhado do interventor Gratuliano Britto [...]”.] Quando da chegada do Ministro a Rio Branco o Dr. Luís Coelho, em companhia de figuras representativas da cidade, fez-lhe uma visita de cortesia.

Segundo as próprias palavras do Dr. Coelho, foram todos recebidos com fidalguia pelo Ministro, que os deixou à vontade para debaterem os assuntos que tinham a tratar. O início da conversa girou em torno do propalado deslocamento da sede da IFOCS para outro município. Argumentaram, então, para que a localização definitiva da sede se fizesse em Rio Branco.

Apesar da pobreza da cidade, o prefeito Luís Coelho, em nome do município, comprometeu-se a doar área de terreno necessária à sua instalação. Homem ponderado, o Ministro após ouvir silenciosamente, declarou que a pretensão dos presentes era mais que justa e que Rio Branco abrigaria, em caráter definitivo, a sede da Comissão e que, posteriormente, seria ela elevada à categoria de 3º Distrito da IFOCS.

A doação desse terreno foi efetivada através do Ao n. 24, de março de 1933, com seguinte redação: “O Prefeito do Município, devidamente autorizado, resolve ceder ao Governo da União, o terreno doado ao Município pela Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro – SANBRA , situado à avenida Cardeal Arcoverde, para nele ser edificado o prédio que servirá de sede à Comissão de Estudos e Obras dos Estados de Pernambuco e Alagoas, da IFOCS, e suas dependências”.
Como corolário da entrevista, pediu o Ministro, conforme palavras do Dr. Coelho, que todos colaborassem para a maior grandeza do Brasil. Havia o prefeito Luís Coelho, pois, alcançado uma grande vitória.

Esse acontecimento era reputado pelo Dr. Coelho como um dos maiores serviços, se não o maior, que havia podido prestar ao município.

Nesse mesmo ano de 1933 teve início a construção do edifício-sede da IFOCS, sendo de se ressaltar tratar-se da primeira repartição federal a instalar-se no interior de Pernambuco. Daí o justo orgulho do Dr. Coelho, pois teve a visão de lutar por essa causa.

\Entretanto, uma das exigências da IFOCS é que fosse construído um campo de aviação. Para tal foi adquirido, por compra, um terreno na zona suburbana, medindo setecentos metros de frente por trezentos de fundos e em seguida doado ao Governo Federal para a construção do campo de pouso. [8-10-1941:Diário Carioca, 1ª col;,goo.gl/r9b2ZK: «[...] Em entrevista concedida à imprensa, o engenheiro Francisco de Saboia discorreu acerca dos trabalhos que a inspetoria de obras contra as secas vem realizando no setor da aviação do nordeste. O engenheiro declarou que foram construídos 7 campos de pouso pela IFOCS em Pernambuco: os de Rio Branco, na proximidade daquela cidade [...].»]

Ainda nesse encontro com o Ministro da Viação, o prefeito conseguiu dois aterros-barragens entre Rio Branco e Mimoso como também auxílio para as barragens do Tamboril e do Salobro.

Continuava grande a afluência de flagelados a Rio Branco, em função da seca prolongada. Chegou a ser registrado um contingente superior a cinco mil retirantes[...].»

14-12-1981 - Diário da Manhã, 1ª col.: tinyurl.com/jr52f7z «No combate as secas o DNOCS é o órgão que executa a irrigação. ...O DNOCS completou em outubro do ano passado 70 anos de criação. As suas origens remontam ao século passado quando a grande seca de 1877/80 obrigou o Imperador D. Pedro II a enviar ao Ceará uma comissão de engenheiros que, fazendo um levantamento da situação aconselhou o represamento da água em açudes, a perfuração de poços e a construção de estradas de ferro e de rodagem. Várias outras comissões foram criadas e extintas sucessivamente, até que, pelo Decreto n. 7.619 de 21 de outubro de 1969, foi aprovado o regulamento para a organização dos serviços contra os efeitos das secas criando-se a Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS). Pela reforma de 1919, a IOCS passou a ser chamada Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS), recebendo finalmente em 1945 a denominação de Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), nome que permanece até hoje. A Lei n, 4229, de 1o de junho de 1963, transforma o DNOCS em autarquia federal vinculada hoje ao Ministério do Interior.»

As tâmaras do dr. Fernando Saboia do DNOCS de Arcoverde
08-03-1959 – Correio da Manhã – RJ, 1ª. col.: goo.gl/KmB2Gh ,«Tâmaras no Nordeste».

«Cachos de tâmaras provenientes de Arcoverde, em exposição numa dependência do "Correio da Manhã". Os transeuntes observaram-nos curiosamente. Tâmaras brasileiras! Quem diria?! E não aproveitam esta grande possibilidade!» 

«[...] Quando o sr. ministro da Viação, almirante Lúcio Meira, esteve em Arcoverde, em dezembro do ano passado [1958], viu as tamareiras muito carregadas, entusiasmou-se. Quis que lhe enviassem alguns cachos para o Rio de Janeiro, quando as tâmaras começassem a amadurecer. Chegaram há poucos dias. Foram expostas em plena Avenida Rio Branco, numa dependênciado Correio da Manhã. Atraíram enorme multidão. Os observadores se sucediam durante o dia inteiro. Todos se entusiasmavam. Todos lastimavam que o Ministério da Agricultura não estivesse cuidando da tamareira. Temos que lastimar o abandono em que as Secretarias da Agricultura do sr. Francisco [...].» 

«Tamareira num jardim do DNOCS, na cidade de Arcoverde, em Pernambuco. Não está sendo bem tratada. Nota-se que foi excessivamente podada. Mesmo assim tem ótimos cachos de tâmaras.»

«Tâmaras de Arcoverde, em exposição no "Correio da Manhã".»

22-3-1959 - Correio da Manhã - 6ª col.:goo.gl/chFgcc
«A tamareira e o Ministério da Agricultura.» 


«[...] A tamareira é outra grande esquecida do Ministério da Agricultura. Há décadas, houve um ministro que pensou em tamareiras. Importaram-se mudas da África. Plantaram-se algumas tamareirais, mas bem diferentes daqueles clássicos da tamareira. O Departamento Nacional de Obras Contra Secas... Foram abandonados. Abandonados continuam. O Serviço de Informação Agrícola do Ministério da Agricultura publicou a monografia "A Cultura da Tamareira" escrito pelo agrônomo Pimentel Gomes. Está em segunda edição. Na Escola Superior de Agricultura ˜Luiz de Queiroz˜, em Piracicaba, um professor de nomeada, e dr. Felipe Westin Cabral de Vasconcelos plantou um tamareiral e está fazendo trabalhos de genética. Já criou algumas variedades que se adaptam a climas bem diferentes daqueles clássicos da tamareira. O Departamento Nacional de Obras Contra Secas, por outro lado, plantou alguns tamareirais, há alguns lustros. Pelo menos as tamareiras plantadas em Arcoverde, Pernambuco, estão em magníficas condições e frutificando muito bem. É que foram plantadas e a ecologia lhes é bastante favorável. Produzem boas tâmaras. Este ano, alguns cachos foram expostos numa dependência do Correio da Manhã. A fotografia mostra que os cachos eram grandes e as tâmaras de muito bom tamanho. As tamareiras de Arcoverde e de outros municípios do oeste pernambucano, mostram que é possível ter boas tâmaras no Brasil.
Infelizmente está faltando fomento. O Departamento Nacional de Obras Contra Secas mostrou que o Nordeste pode produzir tâmaras mas não fomentou sua produção. O Ministério da Agricultura não cuida de tâmaras. Apelamos para a boa vontade e dinamismo do dr. Mário Meneghetti, ministro da Agricultura. Estamos certos que o sr. ministro não permitirá que a tamareira continue esquecida pelo seu Ministério.»


11-06-1961Correio da Manhã, 4ª col.:goo.gl/w4QxKj,«A tamareira, sr. Ministro Romero Costa! [...] As tamareiras que o dr. Francisco Saboia plantou, lá se encontram, na rua principal de Arcoverde. Embora não sejam tecnicamente plantadas, frutificam anualmente. Safras muito grandes, uns 50 quilos de tâmara por palmeira feminina [...].»


FRANCISCO SABOYA DE ALBUQUERQUE

Foto: álbum da família.

Nasceu em 18 de novembro de 1896 no estado do Ceará e ingressou na IFOCS em 1919 como auxiliar-técnico até 1923. Em 1932 reingressou na IFOCS, vindo a ocupar postos de chefia em diversos estados do Nordeste. Em 11 de julho de 1951 foi nomeado Diretor-Geral do DNOCS, cargo em que permaneceu até 9 de junho de 1953. Faleceu em 14 de outubro de 1976.

A maior barragem do interior de Pernambuco é a Engenheiro Francisco Saboia, conhecida antigamente como Poço da Cruz, em Ibimirim, no Sertão. Não detectamos nenhuma homenagem de Arcoverde  a este engenheiro que promoveu sobremaneira a região.

Nenhum comentário:

Postar um comentário