sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Higiene sertaneja

Por Pedro Salviano Filho 
(Coluna Histórias da Região - edição N. 295 de janeiro/fevereiro de 2017 - Jornal de Arcoverde) 

 
Apesar de incomum, o assunto ora abordado, não deixa de ser também inusitado na história da nossa região, embora provocativo. Como eram os hábitos e costumes dos nossos desbravadores sertanejos no que concerne aos cuidados de higiene? 
Novamente, recorremos a algumas bibliografias, jornais de época e vídeos para apresentar respostas referendadas e com links para estimular mais pesquisas pelos leitores e, talvez, novos historiadores.

1814 - No livro Elementos de Hygiene, da Academia de Ciências de Portugal. Seção I  Cap  V, pág 25 (48/383), goo.gl/wwE62x, entre muitas curiosidades, ensina-se a necessidade da manutenção saudável das evacuações intestinais: «Devem ter muito cuidado em ter regulares as evacuações Malvinas, usando a ser preciso, de clisteres resolutos, por ex. raiz de taraxaco, fragaria etc., em cozimento; no qual se infunde camomila, arruda etc.»

Vídeos:

Invenções e descobertas - História das regras de higiene, goo.gl/WTZi1T .
Passado a limpo. A história da higiene pessoal no Brasil, goo.gl/gVxBmI , patrocinado pela Kimberly-Clark Brasil. Interessante vídeo, baseado no livro de Eduardo Bueno, narrado por cantadores de cordel.

Minha cidade, minha saudade. Recife, 1972 - Luiz Wilson, página 192

«Oliveira Lima foi a Rio Branco em 1919, acompanhado do prof. Ulisses Pernambucano e de mais 2 ou 3 amigos, num “automóvel de linha” especial. Nas noites em que dormiu, na cidadezinha, Agostinho de Holanda (seu amigo e de sua esposa, dona Flora, de Vitória de Santo Antão e do engenho Cachoeirinha), teve de arranjar um estrado especial e montá-lo em 4 mochos. “Mestre” Fio deve ter trabalhado na cama do conhecido historiador, dois ou três dias.
Um homem imenso, não sei como se arranjou Oliveira Lima no Rio Branco de 1919, hospedado, embora, em uma boa casa construída naquele ano ou no anterior. Até alguns anos passados, a grande maioria dos “sanitários” de nossas casas era um quartinho, em meia água, nos fundos de muros, onde não entraria, talvez, o historiador admirável. No tempo em que eu era menino, uma das poucas residências de que eu me lembro, em Rio Branco, que possuía “sanitário” dentro de casa, era a do Dr. Leonardo Arcoverde. Um dia, o nosso velho e saudoso amigo revoltou-se com um matuto que era seu parente e acabou, no “quartinho” do velho chalé, com um pacote inteiro de papel-higiênico, que o dr. Leonardo comprava no Recife. -“Este tabaréu”, dizia do dr. Leonardo à “comadre” Caró, “acostumado a se limpar com uma pedra, acabou com meu papel-higiênico! Que é que eu vou fazer agora, Caró?».

Velhos e Grandes Sertanejos, 1º vol. Recife, 1978 – Luís Wilson. Pág. 359. Cap. 29:
«Augusto de Albuquerque Cavalcanti (Cel. Augusto Cavalcanti)
No mesmo prédio em que ficava o "motor da luz” de Rio Branco, Augusto Cavalcanti tinha também uma fábrica de angico ou de tanino. Lá atrás, com a frente voltada para o Rio da Rua Velha (ou Riacho do Mel), 5 ou 6 banheiros que uma boa velhinha, avó de Zé da Tapioca tomava conta. Eram, na realidade, os banheiros da cidadezinha e era ali ou em “seu” Jé nos jumentos de Bertino (que trabalhava na residência do Cel. Antônio Japyassu e, entre outros, nos de Expedito e Zé Castigo.
A água boa, a água de beber iam buscar na Serra das Varas, uma ou duas vezes por semana.»

Cronologia pernambucana, 2014, Recife, Nelson Barbalho, página 189 - vol.19
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 «O Diário de Pernambuco, de 05 de novembro de 1833,[referência não confirmada em goo.gl/O9WliS ] na seção de anúncios, dizia estar à venda, como novidade na Província, “um banheiro de folha de flandres”. Até então mesmo entre as famílias mais finas da capital ou do interior, o banho mais característico de todos era “o de gamela e o de assento, dentro de casa. O banho de cuia”, como informa Gilberto Freire (Sobrados e Mucambos, I, 196-197) [ goo.gl/7CMpzK ]  que comenta e ensina: “Os anúncios dos jornais da primeira metade do século XIX estão cheios de gamelas, aos pouco substituídas por tipos mais finos de banheiros. Para gente de mais idade, o banho era sempre morno, inteiro ou de assento. Segundo alguns viajantes dos tempos coloniais, -um deles Mawe [ goo.gl/zOgju3 ] - as senhoras dos sobrados abusavam do banho morno; e isto concorria para amolentá-las”. Opinião, também, de alguns higienistas do tempo do Império, que se ocuparam do assunto em teses e dissertações.
Uma das gabolices de alguns sobrados ilustres era que deles escorresse para a rua a água dos banho mornos. Água azulada pelo sabonete fino e cheirando a aguardente de qualidade. Os fidalgos das “casas nobres” se orgulhavam de não feder a negro nem pobre.
Deve-se notar que o sabão, a princípio fabricado em casa, foi um dos artigos que se industrializaram mais depressa no Brasil. Sabão de lavar roupa, branqueada também a anil. Sabão de esfregar o corpo da gente fina e embelezá-lo ainda mais. Importava-se da Europa muito sabão de luxo. No século XIX os negros mais ricos deram para importar sabão da Costa. Um consumo enorme de sabão. A tal ponto que no meado do século XIX, grande parte das fábricas do Império era de sabão.
Quanto à gente dos mocambos, é claro que entre ela o luxo do sabão não se desenvolveu. Nem entre ela nem entre a metralhada das senzalas. O budum, a catinga, a inhaca, o “cheiro de bode” dos negros, em torno da qual cresceu todo um ramo de folclore, no Brasil, deve ter sido o exagero do cheiro de raça, tão forte nos sovacos, pela falta, não tanto de banho, como de sabão, em gente obrigada aos mais duros trabalhos.
Porque de banho, o negro, a gente do povo mulata, e não apenas a mameluca e a cabocla, nunca se mostraram inimigos no Brasil. A tradição de excessivo gosto da água de bica, em regalos de banho ou pelo menos de lava-pés, não se encontra só no Norte; também no Centro e no próprio Sul do País. O moleque brasileiro tornou-se célebre pelo seu gosto de banho de rio. Os jornais da primeira metade do século XIX e até da segunda estão cheios de reclamações contra moleques sem-vergonha, e mesmo homens feitos, que, nos lugares mais públicos, ou ao pé dos sobrados mais nobres, despiam-se de seus molambos, de seus trapos de estopa ou de baeta, e iam tomar banho completamente nus”.
Assunto a que voltaremos a nos referir em capítulo seguinte.
Pelo Agreste e pelo Sertão, o banho preferido de todos era o de rio. Só se tomava banho em casa quando se estava doente. Geralmente, nos rios, havia lugares destinados aos homens e outros destinados às mulheres. Gostava-se, também, e mito, do banho de choque, que diziam se “excelente para os nervos”, e do banho de bica, geralmente tomado pela manhã, pelos homens, que, “para evitar refluxo”, banhavam-se chupando cajus ou laranjas e tomando cachaça. Na época dizia-se que sabão de negro ou de pobre em “caco de telha”, usado para tirar a sujeira grossa do couro. Mulher fina, para evitar olhares indiscretos ou maliciosos de certos homens que se escondem atrás de toupeiras de mato para vê-la banhando-se no rio, muitas vezes em casa, geralmente no quintal, tomava banho de alguidar de barro, usando sabonete importado da Europa e “água-de-cheiro”. Banho de mulher-dama sempre era tomado às escâncaras, impudicamente.
Nas casas agrestino-sertanejas não havia banheiros nem gabinetes sanitários. Via de regra, defecava-se no mato, “por trás das bananeiras” cuja folhas às vezes eram utilizadas para o asseio anal. Também na cidade, segundo Gilberto Freire (Ob.Cit.I, 198),
“… o grosso do pessoal defecava no mato, nas praias, no fundo dos quintais, ao pé dos muros e até nas praças. Lugares que estavam sempre melados de excremento ainda fresco. Luccock diz: “thickly strewed with ever fresh abominatios”.  Isso sem falarmos da urina, generalizado como era o costume dos homens de urinarem nas ruas; e de nas ruas se jogar a urina choca das casas ou dos sobrados sem quintal. A 03 de março de 1835, apareceu no Diário do Rio de Janeiro,[referência não confirmada em goo.gl/uGdE8Y]  esta reclamação típica: “Já há tempos que se roga aos vizinhos que ficam na Igreja de s. Jorge, da parte da Rua da Moeda, que houvessem de não deitar na rua, à noite, águas imundas e urinas chocas, e que ainda continuam; portanto por este anúncio se torna a rogar, prevenindo de que se tornarem a continuar se representará ao juiz competente, pois que basta a estação em que estamos de grande calor e ainda sofrer dos mais vizinhos semelhante mal pestífero saúde dos mesmos”.
O hábito de defecar de cócoras, à maneira dos índios, de tal modo se generalizou não só entre a gente rural como entre a população mais pobre das cidades, que ainda hoje há brasileiros distintos, de origem rural, ou então humildes, incapazes de se sentarem nos vasos sanitários; só acham jeito de defecar pondo-se de cócoras sobre a tampa do W.C., que às vezes deixam toda emporcalhada. Daí serem tão raros, no Brasil, os W.C públicos limpos ou asseados. Mesmo em algumas casas de família, nas cidades já saneadas, não se concebe que os W.C. possam ser lugares limpos, inteiramente diversos dos seus predecessores; as “casinhas” com simples barris sem o fundo enterrados até o meio sobre uma fossa. O uso desses barris, em “casinhas” distantes do sobrado ou da casa, generalizou-se nas casas suburbanas da segunda metade do século XIX.
Nas aldeias públicas do Agreste e do Sertão, os presos “se aliviavam”, isto é, defecavam e urinavam em barris denominados de “cuba”, os quais ficavam cheios durante o dia e, à noite, eram conduzidos pelos presos pobres para os matos ou para beira do rio, onde se fazia o despejo das fezes e urinas, retornando a “cuba”, com catinga e tudo, para servir de “sanitário” da cadeia no dia seguinte.»

Gazeta da Tarde – RJ, 01-11-1896, 2ª col. goo.gl/epzWIe . Anúncio de papel higiênico.


«WATER-CLOSET

Papel higiênico e medicinal para water-closet. Este papel é perfeitamente puro e adequado ao fim que se destina. Este papel é perfeitamente puro e adequado ao fim que se destina. É sabido que em grande parte as moléstias hemorroidárias são devidas ao uso do papel ordinário, sobretudo do branco que, além da impressão com tintas oleosas e ácidas, contem geralmente substâncias nocivas, como sejam: o vitríolo, cal, potassa etc., que se empregam para branquear o papel. O presente papel é o único até agora feito que preenche as qualidades de pureza necessárias, é macio e se dissolve facilmente na água, de sorte que não há perigo de entupir os canos do esgoto, como acontece com outros papéis de qualidade ordinária.»

Diario de Pernambuco, 17-07-1921, 4ª col. goo.gl/tzvNF2 . Descarte de papel na descarga  - Salubridade das habitações


«Salubridade das habitações

A Repartição de obras públicas, algas e esgotos pede-nos a divulgação do seguinte:
"A obstrução da canalização de esgotos deve ser evitada de um modo sistemático; e, com os novos serviços, a obstrução é sempre evitável, salvo os casos de coagulação da gordura aderente à superfície interior das canalizações, quando ela se dê independentemente dos cuidados recomendados.
O uso do papel higiênico se deve generalizar, e os papéis servidos devem ser lançados à latrina, para serem removidos com as descargas das respectivas caixas de lavagem, sem o menor receio de que causem obstrução. O uso de papéis de outra natureza, e, porém, condenado pela higiene e é proibido lançá-los nos aparelhos. Deixar os papéis servidos, de qualquer natureza, em caixões, em cestos, expostos às moscas, que neles pousam e deles voam para pousarem nos alimentos é uma prática condenada pela higiene e só um qualificativo merece, tão expressivo que desnecessário se faz repeti-lo. Lançar no esgoto trapos, lixo, terras, cinzas, resíduos de alimentos crus e cozidos, pós de café, e outras substâncias estranhas ao serviço dos esgotos, são práticas que se não podem mais justificar pela ignorância; elas resultam geralmente do desleixo. A "Dona de casa" não se pode eximir da responsabilidade pelo asseio da habitação e pela boa manutenção do serviço sanitário; a falta de assistência doméstica é evidente na maioria dos casos, mas, como justificação do que se observa de irregular, alega-se a ignorância e o desleixo dos criados. Uma parcela do tempo que sobra para a vida mundana deveria ser mais vantajosamente empregada nos cuidados da vida doméstica, para felicidade hígida do lar; com o bom exemplo, vindo do alto, os criados seriam cuidadosos e as crianças se educariam na prática dos princípios sãos, tão úteis para o seu futuro adulto e tão necessário à comunhão social. Bem escreve Agostinho de Campos: - "Casa de pais, escola de filhos". O mestre deve ser o continuador na prática destes bons princípios trazidos do lar, de entre eles a higiene; estes princípios devem ser então desenvolvidos na escola, singelamente, evitando-se definições pedantes da didática moderna. Não é por meio de livros decorados e repetidas, enfadonhas para crianças, talvez contraproducentes, não é com esse método de ensino que se formarão mulheres e homens asseados, sadios, virtuosos, inteligentes e úteis à família. O esgoto de uma casa é comparável ao intestino do organismo animal: o médico, ao tratar um doente, cuida logo do desembaraço intestinal; é preciso também, em certos casos, indagar do funcionamento intestinal do prédio. A casa doentia faz os moradores doentes, e não há drogas que curem estes sem que seja aquela previamente curada, isto é, saneada. Para sanar um prédio não basta que se lhe deem água potável e esgotos perfeitos. A muitas outras condições atender, e de entre elas citamos apenas a boa iluminação solar e a ventilação natural, em todos os compartimentos e especialmente nos de dormida, nos de trabalhos diurnos e nos gabinetes sanitários. Se isto não se puder conseguir nos estreitos e compridos prédios antigos, de vários pavimentos, infestados de alcovas - esses prédios devem ser condenados por insalubridade: - são casas assassinas, no dizer do eminente arquiteto francês. - Recife, outubro de 1916. - S.R. de Britto; »

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