sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Energia elétrica em Arcoverde

Por: Pedro Salviano Filho
(Coluna Histórias da Região - edição N. 300 de outubro e novembro de 2017 - Jornal de Arcoverde)

Foi em dezembro de 1919, um mês após seu casamento, que o dinâmico empreendedor, cel. Augusto Cavalcanti, inaugurou a luz elétrica, essencial para o funcionamento do Cine Rio Branco, outra novidade sua, na então Vila Rio Branco (terceiro topônimo de Arcoverde). 
Como postes de iluminação, eram utilizados trilhos da rede ferroviária que aparecem em muitas fotos da época.
O rápido desenvolvimento econômico que ocorria tornou o singelo motor, movido a óleo, insuficiente para acompanhar o ritmo, fazendo os gestores procurarem alternativa, em 1929, nos motores da Sanbra, que durou até 1948, quando a iluminação pública de Arcoverde passou a ser fornecida pela Elfasa (Empresa de Força e Luz de Arcoverde), sociedade de iniciativa particular.
Com a inauguração, em 15 de janeiro de 1955, da Usina Hidroelétrica de Paulo Afonso, finalmente surgia a solução para o grande problema da energia elétrica em toda região. 
Na gestão do prefeito Murilo de Oliveira, em 1956, começava a construção da rede de alta tensão para, no dia 1º de março e 1957, ocorrer a inauguração, com a chegada definitiva da luz da Chesf.


Este recorte do jornal carioca Correio da Manhã,do dia 02-01-1920goo.gl/2psxPF,  7ª col. novamente esclarece a data correta das inaugurações da luz elétrica e do cinema em Arcoverde: dezembro de 1919. Mais informações: goo.gl/2vi7zf.


Foto de 1933/34, do livro Município de Arcoverde (Rio Branco). Cronologia e Outras Notas. Luís Wilson, 1982. Ao fundo o “Serrote do Cruzeiro”. No prédio à esquerda do“Beco do Motor da Luz” (depois conhecido como “Beco do dr. Luiz Coelho”), era onde ficava o motor. Atualmente é Rua Vitorino José Freire: goo.gl/C9FwA6 


Primeira fachada, onde aparece o nome “Cinema Rio Branco”. Detalhe de foto de 1932, do livro Município de Arcoverde (Rio Branco). Cronologia e Outras Notas. Pág. 176, Luís Wilson, 1982.

Pesquisando o tema em algumas publicações compartilhamos os fatos a seguir com os leitores:

15-01-1920 - Jornal do Recife ,goo.gl/Wa1FEI , 7ª col.: «[...] - O cinema "Rio Branco" tem proporcionado encantadoras "soirées" aos seus "habitués". A luz elétrica, quer pública, quer particular, fornecida pelo coronel Augusto Cavalcanti, continua regular, esperando este cavalheiro entrar em acordo com o município afim de melhor servir ao público em geral. Presentemente o coronel Augusto Cavalcanti fornece gratuitamente a iluminação pública o que vem provar a sua boa vontade de colaborar no progresso de Rio Branco. Rio Branco, 11-1-1920 (Do Correspondente). »[Sobre o cinema goo.gl/irNlDe].

Arcoverde. História político-administrativa, 1995. Brasília-DF. Sebastião Calado Bastos.
Pág. 54 - «O Cel. AntonioJapyassu, em 1929, assinou um contrato com a Sanbra (Sociedade Algodoeira deu Nordeste Brasileiro), para fornecimento de luz elétrica. Como consequência, a cidade passou a dispor de um melhor serviço de iluminação pública e particular. »
Pág. 79 - «Ocorrendo um colapso no sistema de luz da cidade, o dr. Luis Coelho e alguns amigos, mesmo enfrentando dura oposição, conseguiram reabilitar-se-lo, sendo pois fundador e presidente da Elfasa - Empresa de Luz e Força de Arcoverde S/A.
Estava solucionado o problema de energia, pois essa empresa prestou inestimáveis serviços até a chegada da Chesf.»
[12-02-1956Diario de Pernambuco, goo.gl/i1ynXd3ª col. Convocação deAssembleia Geral.]
Pág. 122: «[Severiano José Freire Filho] Em 26 de outubro de 1947 foi eleito prefeito do município,"[...] Também durante sua administração, particulares fundaram a ELFASA (Empresa de Luz e Força de Arcoverde S/A) pois a energia elétrica era fornecida à cidade com bastante deficiência pela Sanbra, que tinha contrato assinado com a prefeitura desde 1929.»
Pág.142. «[...] Já estando Murilo à frente dos destinos de Arcoverde, o velho Diário de Pernambuco de março de 1956 noticiava que o Secretário de Viação, após despacho com o Governador Interino José Francisco, autorizara a construção da rede de alta tensão da cidade, bastando que a Chesf levasse até o município a linha de distribuição. E que a verba para esses serviços seria repassada pelo Fundo de Energia Elétrica, O Secretário Leal Sampaio declarava aos jornalistas que o Estado se encarregaria da construção da rede na cidade cuja potência seria igual à da Capital (13.800 kilowatt) em 60 ciclos.
Por essa ocasião o Dr. Paulo Parisio, que representava a Chesf no Estado, informava ao prefeito que os três transformadores já se encontravam em Recife e que a Companhia já estava providenciando a ligação dos cabos condutores de Pesqueira a Arcoverde.
Em 23 de junho de 1956, através de ofício, o prefeito dirigia-se ao Gal. Carlos Berenhouser Junior, Diretor-Comercial da Chesf, dando conta das providências que a prefeitura estava adotando, como a remodelação da rede distribuidora e a chegada de grande parte do material necessário, ou seja, postes, fios, isoladores e cruzetas. Logo em seguida, dia 28, o Dr. Berenhauser enviava do Rio telegrama ao prefeito Murilo de Oliveira, congratulando-se com este pelos esforços empreendidos, o que possibilitava abreviar o prazo para a chegada da luz elétrica ao município.
No mês seguinte, em julho, Murilo esteve em Paulo Afonso com o Dr. Alves de Souza, presidente da Chesf, ocasião em que essa autoridade prometeu chegar com a linha de transmissão a Arcoverde no mês de novembro. Entretanto, dificuldades técnicas não o permitiram.
Em setembro de 1956 o diretor do DAE, engenheiro Telmo Maciel, através do ofício n. 1.101 informava ao prefeito a pretensão do Governo em administrar diretamente os serviços de energia, com a criação do Serviço de Industrialização de Luz e Força de Arcoverde (Silfa), como consequência da encampação da empresa fornecedora de energia elétrica.
Nesse mesmo mês estiveram na cidade os engenheiros Gadelha e Nigri, da Chesf, para o acerto em definitivo da questão do terreno destinado à instalação da subestação abaixada que serviria a cidade de energia farta e barata.
A esta altura surgiria um complicador. Escolhido o local, formou o prefeito uma Comissão de três pessoas (Pedro de Oliveira, Félix de Paiva e Secundino Lúcio dos Santos), para que fosse avaliado o terreno onde seria instalada a subestação. A prefeitura necessitava desapropriar um hectare no Bairro da Boa Vista, de uma propriedade de dois mil hectares entre Pesqueira e Arcoverde.
Essa área, a ser doada à Chesf, foi avaliada em trinta mil cruzeiros. O proprietário exigia cem mil. Nem um centavo a menos.
Não houve como conciliar o preço exigido e o estipulado pela Comissão. Teve Murilo que recorrer à Lei n. 3.365, de 21 de junho de 1941, editada por Getúlio Vargas, dispondo sobre desapropriações por utilidade pública. Verificando-se os arquivos da prefeitura, ficou constatado que o proprietário da gleba de dois mil hectares pagava impostos com base em declaração de que o mesmo valia hum mil cruzeiros.
Baixou então o prefeito a Lei Municipal n.331, de 16 de novembro de 1956, desapropriando, por utilidade pública, uma gleba de terra medindo 100 x 100 metros, a ser desmembrada da Fazenda Boa Vista, da propriedade Aldeia Velha, destinada à construção da subestação da Chesf, por Cr$ 5.000,00. Como o proprietário não concordava com esse valor, foi feito o depósito em seu nome no Banco do Brasil
Com base no Decreto Municipal n. 1, de 17 de novembro de 1956, o chefe do executivo assinou a respectiva escritura pública de doação à referida Companhia.
Essa atitude, necessária para que Arcoverde recebesse a luz de Paulo Afonso, causou sérios transtornos políticos ao prefeito, em vista do rompimento que se verificou tanto com o proprietário do terreno quanto com o próprio vice-prefeito, entre outros.
Por se tornar necessário readaptar a rede elétrica, vários problemas técnicos foram enfrentados junto ao Departamento de Águas e Energia da Secretaria de Viação e à CHESF.
Em dezembro de 1956 a rede de transmissão Pesqueira-Arcoverde, confiada à firma "Morrison", já estava instalada. No perímetro urbano estava em fase de conclusão o primeiro circuito, que partia do Bairro da Boa Vista em demanda à Av. Pinto de Campos. Em seguida eram iniciados os trabalhos o segundo circuito, o qual terminava no depósito da Shell, próximo ao Campo de Aviação.
Além da doação do terreno para a subestação, a prefeitura cedeu um prédio para o almoxarifado do DAE e colocou pessoal e material à disposição desse Departamento.
Valeo o esforço, justiça se faça. O determinismo de Murilo estabelecera o fiat lux. E numa sexta-feira, dia 1º de março de 1957, em Arcoverde fez-se luz.
A Avenida Zeferino Galvão (Rua da Linha) era o cartão postal da cidade para aqueles que viajavam de trem.
O prefeito Murilo preocupou-se com o aspecto plástico dessa artéria, visando mostrar a realidade da urbe.
Empreendeu, então, a construção do cais dessa avenida, obra esta que seus adversários e detratores insistem em citar como sua única realização.
Como infraestrutura dessa obra, foi construída uma galeria de médio porte, com cerca de oitocentos metros de extensão, indo do prédio da antiga Pinto Alves até a residência de José Bezerra, toda escavada em moledo duro e recoberta com lajões, sobre a qual foi colocado o calçamento. Também ali o governo municipal construiu a extensão  da rede abastecera de água, em ferro fundido de três polegadas, assentada pela calçada do lado par, derivada da tubulação de oito polegadas à altura do prédio da Sanbra, atual Cecora.
A arborização em flamboyant, nas laterais e centro da avenida, foi feita a partir de pequenas mudas cedidas pela prefeitura de Recife.
Há de se registrar que o governo municipal teve de enfrentar um grande problema em relação a essa obra.
A Rede Ferroviária do Nordeste (RFN) embargou a construção do Cais da Rua da Linha, exigindo vinte metros para cada lado da linha férrea.
Acionado pelo prefeito Murilo de Oliveira Lira, o Cel. José Bezerra resolveu a demanda, junto ao Ministro José Américo.[...].»


Minha cidade, minha saudade.  Rio Branco (Arcoverde). Reminiscências. 1972. Luís Wilson
Pág. 306  -«Os postes da iluminação pública eram poucos e de trilhos da Great Western. Lá no alto, uma lâmpada de 5 ou 10 velas, com um chapeuzinho em cima. Quase em frente à nossa casa, exatamente na divisa do chalé do dr. Leonardo Arcoverde com a atual residência do dr. Luiz Coelho, havia um daqueles postes, onde eu, à noite, e mais dois ou três amigos, batíamos, às vezes, com uma moeda, das grandes, de 200 réis, e era uma batucada que devia encher todo o mundo. No fim da rua, na entrada do beco que vai para Buíque, recordo-me de outro poste, embaixo do qual conversava, até altas horas, o meu velho amigo Mário Caboré. Só subia para a "Vila Almerinda"depois que a luz dava o sinal de apagar-se.»


Município de Arcoverde (Rio Branco). Cronologia e Outras Notas. 1982. Pág. 176, Luís Wilson.

Pág.86. «[...] Ainda em 1917 [1919], Augusto Cavalcanti (Augusto Mouco), ilumina também com luz elétrica a sua cidadezinha. O motor ficava no beco que dá passagem de nossa atual av. cel. AntonioJapiassu para a rua Velha, hoje, "Beco do dr. Luís Coelho. Era antes o "Beco do motor da luz”. Nossas ruas não foram iluminadas antes com campeões de gás, como aconteceu com as do Recife, as de Pesqueira e as de outras cidades do interior do Estado, não tendo tido, assim, Olho d'Água dos Bredos ou Rio Branco, em outra época, o seu "acendedor de lampiões".[...] Ainda naquele ano de 1917, a Rua Velha (nossa primeira rua, passa a ser denominada "Rua Leonardo Pacheco Couto”.)»

Pág. 103 - «A Sanbra, cujos edifícios foram inaugurados no dia 8-12-1919, era nosso principal estabelecimento fabril, acionado por dois motores Deutz de 265 HP, mantendo no período da safra cerca de 200 operários.»

Pág. 122:  «1929 - «O cel. AntonioJapiassu, prefeito do município, assina um contrato com a "Sanbra"para o fornecimento de luz elétrica a Rio Branco, que passa a ter um melhor serviço de iluminação pública e particular. Com o velho motor do cel. Augusto Cavalcanti ficávamos, vez por outra, 10, 15 e 20 dias sem luz. Voltávamos às candeias de azeite, às velas (primitivamente de sebo, depois de cera e depois, ainda, de estearina ou de espermacete), aos bicos de "carbureto", de ótima luz (mais utilizados em nossas casas de comércio, das 5 e meia ou das 6 às 8 e às 10 horas da noite), aos alcoviteiros (candeeiros de flandeiros, surgidos depois que na quarta década do século passado apareceu o gás líquido ou o querosene), aos candeeiros com mangas de vidro, de parede, ou de suspensão (a estes últimos chamados "candeeiros belgas") e às lâmpadas à álcool.»

Pág. 167: «1948 - A iluminação pública de Arcoverde passa a ser fornecida pela Elfasa (Empresa de Força e Luz de Arcoverde), sociedade de iniciativa particular, fundada a 28 de junho, por elementos de projeção da cidade. Substituíra a Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro - Sanbra, com a qual o município tinha um contrato desde o ano de 1929 (administração cel. AntonioJapiassu).»

Pág. 183: «1955 - Inauguração, a 15 de janeiro, da Usina Hidroelérica de Paulo Afonso, pelo presidente Café Filho, entrando em funcionamento com 2 grupos geradores de 60.000Kv, cada um, tendo sua capacidade projetada para a capacidade de 1.000.000 de Kw.»

Pág. 184:«1957 - No dia 1º de março Arcoverde é beneficiada com luz e força da Cachoeira de Paulo Afonso, acendendo-se as lâmpadas de suas principais ruas. Luís Gonzaga e José Dantas (intérpretes extraordinários da alma do Sertão e de sua gente) nos dariam alguns anos depois (1965) o baião “Paulo Afonso”[goo.gl/vr3wwB]:

«Delmiro deu a ideia
Apolônio aproveitou
Getúlio fez o decreto
E Dutra realizou
O Presidente Café
A Assim inaugurou
E graças a esse feito
De homens que têm valor
Meu Paulo Afonso foi sonho
Que já se concretizou
Olhando pra Paulo Afonso
Eu louvo o nosso engenheiro
Louvo o nosso cossaco
Caboclo bom verdadeiro».



Foto de 1922.  Na hoje Av. cel. Antonio Japiassu. Postes de iluminação pública. Foto do livro Município de Arcoverde (Rio Branco). Cronologia e Outras Notas. Pág. 44, Luís Wilson, 1982. E do  livro Minha cidade, minha saudade.  Rio Branco (Arcoverde). Reminiscências. 1972. Luís Wilson. Pág. 39.


1933 - Postes de iluminação na ora Av. Cel. AntonioJapiassu. Do livro Minha cidade, minha saudade . Rio Branco (Arcoverde). Reminiscências. 1972. Luís Wilson. Pág. 323.


Foto de 25-10-1933 da então av. João Pessoa (hoje col. Antonio Japiassu), onde à esquerda aparece o grupo escolar Sérgio Loreto (depois de 1930, grupo Escolar Quatro de Outubro, hoje Secretaria da Fazenda, Agência da Receita Estadual, Sefaz (goo.gl/maps/beXrt), Escola Monsenhor Fabrício (recém demolida) e o cinema Rio Branco. Foto do livro do livro Município de Arcoverde (Rio Branco). Cronologia e Outras Notas.  Luís Wilson, 1982.


Murilo de Oliveira Lira (prefeito, de 1955 a 1959). Na primeira imagem, aos  18 anos, em 1942. Acima, inspeciona a montagem da linha de transmissão entre Arcoverde e Pesqueira. Abaixo imagem de Murilo de Oliveira, já residindo em Recife, no ano de 1984, aos 60 anos de idade. (Fotos: acervo da família).

18-10-1945 - A Noite,bit.ly/1IdqcKZ, 9ª col.: «Arcoverde - Em meu nome e no das classes produtoras deste município, manifestamos nossos aplausos pelo ato benemérito de V. Excia. consubstanciado no decreto de criação da Cia. Hidro Elétrica de São Francisco, que vem demonstrar a todos os brasileiros conscientes, a atitude progressista do Governo de V.Excia. Respeitosas saudações - Severiano Freire, prefeito.»
1947O Cruzeiro. goo.gl/bzSfc5  Um novo surto de prosperidade para o Nordeste.
29-08-1951 – Diário Oficial,  bit.ly/1IuAA0i,  Encampação Elfesa; 02-09-1951 – Mais, 11-09-1951, bit.ly/1IdDes1, Sugestão de requerimento à Chesf para inclusão de Arcoverde. bit.ly/1OFI31h, Mais: 11-09-1951, bit.ly/1KELdo2, Requerimento 375; Mais: 22-09-1951, bit.ly/1JW978M, Parecer 752. 
1955 O Cruzeiro – Salvação de Paulo Afonso. goo.gl/JeYdF1

2007 – Como surgiu a Chesf - goo.gl/tL9tKd

2007 - Chesf (Companhia Hidro Elétrica do São Francisco). goo.gl/vA51dt

2016 História da Celpegoo.gl/ufj8tq. Energia em Pernambuco.

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