segunda-feira, 29 de maio de 2017

Estradas rodoviárias no sertão pernambucano

Por Pedro Salviano Filho 
(Coluna Histórias da Região - edição N. 297 de maio/junho de 2017 - Jornal de Arcoverde) 


A construção de estradas rodoviárias em épocas de grandes secas foi estratégia governamental para se tentar aliviar o severo problema.

Apesar das indesejáveis e horríveis adversidades da seca a região sertaneja de Pernambuco, na segunda década do século passado, conseguiu converter o fenômeno em fator de desenvolvimento. Afinal, nesta época, as estradas de rodagem eram praticamente inexistentes na vila Rio Branco, embora ali já fosse fim de linha ferroviária, que assim ainda permaneceu por 21 anos, o mais importante fator desencadeante do crescimento local.

As estradas rodoviárias Rio Branco-Triunfo (inaugurada no fim do ano 1916), Rio Branco-Buíque (inaugurada em 1919)e Rio Branco-Pedra, seculares estradas, são temas deste assunto, onde os registros aqui compilados permitem um novo olhar sobre a nossa história.

Como veremos, Manoel Siqueira Campos, coronel Dudu, foi o construtor da estrada Rio Branco-Triunfo. Arcoverde tem hoje uma rua, a Cel. Siqueira Campos goo.gl/kY9KmW e também bairro goo.gl/xGHGzR com mesmo nome. Seria homenagem ao construtor da estrada Rio Branco-Triunfo?

A seguir confira os registros das ações que levaram ao desenvolvimento das estradas na região.

(Para ver muito mais histórias da região veja os links no final deste artigo)

1849–Livro de Atas das sessões da Câmara Municipal de Cimbres de 1840 a 1854. Coleção Documentos Históricos Municipais n.10, Recife, 2016, página 172:
«Ata da 3ª  sessão ordinária de 12 de julho de 1849 [...]. Um requerimento do juiz de paz da povoação do Olho d´Água, deste Termo, requerendo a fatura de uma estrada da povoação acima declarada para esta vila, e entrando em discussão foi deferido pelo cômodo trânsito público [...].»
Município de Arcoverde (Rio Branco). Cronologia e outras notas. 1982 – Luís Wilson, Recife-PE. Página 62, onde o documento original acima foi assim transcrito:1849 – «Joaquim Severiano de Albuquerque, juiz de paz de Olho d´Água, requer à Câmara de Cimbres a construção de uma estrada fazendo ligação entre a povoação de Olho d´Água e a Vila de Pesqueira, no que foi atendido e tendo sido, sem dúvida, a partir daquela época, que o Caminho das Boiadas (Roteiro do Ipojuca), começa a passar naquela povoação; [...].»

Em 1880 um mapa mostra a situação de Olho d´Água dos Bredos (hoje Arcoverde) e outras localidades: goo.gl/E8jvKM 


No detalhe algumas localidades entre Triunfo e Olho d´Água dos Bredos (segundo topônimo de Arcoverde), onde, em 30 de dezembro de 1916, foi inaugurada a primeira estrada rodoviária.Mapa rodoviário PE atual: goo.gl/NTT5jW .

O AlmanakLaemmert, daquele 1916, apresentou o mapa ferroviário do estado de Pernambuco (detalhe acima): goo.gl/IgiKhk 


1890 -Jornal de Recifegoo.gl/z2HLzK , 4ª  col. «[...]Ainda é tempo do governo mandar fazer os açudes das vilas do Buíque e da Pedra, de Santo Antônio do Tará e do Mundo Novo, e a estrada de Buíque a Garanhuns, para socorrer ao povo, matando-lhe a fome e acabando com a nudez.»
1908 -Dicionário corográfico, histórico e estatístico de Pernambuco, de Sebastião de Vasconcelos Galvão, Rio de Janeiro, 1908, pág. 406 (vol.1), goo.gl/4CrWtS:«Olho d´Água dos Bredos. Povoação.  Situada no município de Cimbres ao poente da cidade de Pesqueira e desta distante 55 quilômetros, fica encravada entre a serra da Aldeia Velha e um serrote de pedras, um tanto alto; está em terreno plano e arenoso a mesma povoação, junto da qual pelo lado do sul corre o riacho do Mel, sempre seco durante o verão, e onde, nessa época, abrem cacimbas. Consta o povoado de umas 40 casas, dispostas em duas ruas, contando cerca de 300 habitantes, e possui uma boa capela, fundada por Leonardo Pacheco do Couto, sob a invocação de N.S. do Livramento. Daí à vila da Pedra medem 30 quilômetros. Por essa povoação é a melhor estrada que há no município para o interior do Estado, visto como não se tem de subir a serra do Ororubá. Na época própria é admirável o movimento de boiadas e cavalarias, que por ai fazem o trânsito[...].»

10-09-1912O Paiz (RJ), goo.gl/ZRfQic, 6ª coluna: «[...] Ao mesmo tempo, a divisão procede aos estudos, que aguardam próximo termo, da estrada pública entre Rio Branco e Buíque, em uma extensão de cerca de 40 quilômetros».

10-05-1914 -Jornal do Recife, goo.gl/DLkctz, 2ª  col.«[…]Obras contra as secas.[...] No correr do ano de 1913 […] estão concluídos os estudos de estradas carroçáveis: […] em Pernambuco, de Rio Branco a Buique, com 33 quilômetros […].»

29-02-1916 - O Paiz (RJ), goo.gl/SZW7f2, 3ª col.: «Pelo Ministério da Viação foi solicitada do da Fazenda a distribuição do crédito de 20:000$ à delegacia fiscal em Pernambuco, por conta do crédito aberto pelo decreto n. 11.641, de 15 de julho de 1915. A referida quantia será entregue em quatro partes, como adiantamento, ao encarregado das obras da estrada de Rio Branco a Triunfo, sr. Manoel Siqueira Campos. »
No livro Um sertanejo e o Sertão, Ulisses Lins, Rio de Janeiro, 1976, pág. 116: «Logo que regressei  a Alagoa de Baixo, segui para Triunfo, e vi que muita gente trabalhava na serra, rasgando-lhe as encostas, sendo informado de que se construía uma estrada de rodagem. Achei graça, pois não podia admitir que os carrinhos Ford – pioneiros no interior – tivessem peito para escalar as ladeiras valentes da serra da Baixa Verde. Fora Manoel de Siqueira Campos (Dudu), grande comerciante ali, espírito arrojado e empreendedor, quem tomara a iniciativa daquela tarefa de Hércules. Providencialmente, centenas de sertanejos famintos – estava no auge a tremenda seca de 1915 – ali estavam matando a fome, com os parcos salários recebidos. O dr. Manoel Borba havia acertado com Siqueira Campos a construção da estrada, aproveitando a época do flagelo climático, a fim de evitar maior êxodo dos sertanejos, e prometera ir a Triunfo, logo que a estrada estivesse terminada, O que fez , efetivamente.»

1915 - Município de Arcoverde (Rio Branco). Cronologia e outras notas.), Luís Wilson, Recife, 1982, pág. 83.«O governo do Estado ou o Governo Federal, para auxiliar os flagelados da “Grande Seca” daquele ano, manda construir a Estrada de Rodagem de Rio Branco a Buíque. Manuel de Siqueira Campos manda construir também a Estrada de Triunfo a Rio Branco, com a mesma finalidade, comparecendo a inauguração desta última, entre outros, o dr. Manuel Borba, governador do Estado, tendo sido recebido em Alagoa de Baixo (Sertânia), pelo dr. Ulisses Lins de Albuquerque e, em Custódia, pelo cel. José Estrela de Sousa, Esperidião Mariano de Sá (pai do deputado José Gomes de Sá), Quinca de Sá, José Cassiano Pereira e outros amigos. Os automóveis em que viajaram a Triunfo o Dr. Manuel Borba, governador do Estado, e sua comitiva (um dos quais do Cel. Delmiro Gouveia e outro do Dr. Romeu Pessoa de Queiroz), vieram até Rio Branco em um carro de nossa antiga Great Western. Aqueles foram, talvez, os primeiros automóveis a passarem em Rio Branco, que em 1922, já possuía sua agência “Ford”e, entre outros carros particulares, um “Studbaker” do cel. Félix de França (Brejo de São José, em Buíque), para nove pessoas, um “Overland”, de Nebrídio Granja e outro carro do cel. Arcelino de Brito. Entre os anos de 1922 e 1924 a “praça” de Rio Branco possuía seis ou sete automóveis.»


Nesta foto aparecem 7 veículos para desembarque na estação ferroviária Barão do Rio Branco. Segundo o sr. Augusto Geraldini, do Clube do Fordinho - Brasil, “os veículos apresentados na foto são da marca Ford, modelos T do ano de 1923, pois parecem ser carros novos, seguindo para alguma revenda Ford. As duas janelinhas traseiras retangulares, são típicas deste modelo do ano de 1923.”

15-06-1915-Jornal do Recife, goo.gl/X53Rq7 , 3ª  col.«Entre as obras a serem executadas para auxílio dos famintos, […] estrada de rodagem de Rio Branco a Buique.[...]»

18-02-1916 - Diario de Pernambuco, goo.gl/Px7IUJ , 5ª  col.«Estrada de Rio Branco a Buique. Para Rio Branco, aonde vão escolher local para a instalação do escritório da Inspetoria de Obras contra a Seca, seguem hoje os engenheiros drs. Lincol e Almeida, chefe da comissão de estudos da estrada carroçável de Rio Branco a Buique, Joaquim Olyntho Bastos, secretário, o dr. Graciliano Martins, engenheiro da fiscalização federal das Estradas.Vão em automóvel especial da Great Western. Partirão da Central às 7 horas devendo regressar no próximo sábado. Segundo nos informam, na semana próxima seguirá para Rio Branco toda a comissão.»

25-02-1916 – Diario de Pernambuco, goo.gl/x8jnF7 ,5ª col. «De Rio Branco a Triunfo. Escrevem-nos: A estrada de rodagem para automóveis, que se iniciou em Triunfo, sob a ação benéfica e patriótica de Siqueira Campos, é uma obra que merece de modo especial a atenção do exmo. sr. dr. Manoel Borba, ilustre governador, que com brilho e critério vai, como ótimo timoneiro, levando os destinos do estado. Para essa estrada de rodagem, que está sendo no momento atual a salvação de um milhar de famintos sertanejos, chamamos o olhar do eleito do benemérito chefe do Estado que, estamos certos, tomará máximo interesse para que os nossos irmãos do interior gozem também um pouquinho do influxo redentor da civilização, que apagará as manchas desse sol nebuloso da politicagem. No dia emque s. excia tiver realizado essa obra grandiosa, que é a estrada de Rio Branco a Triunfo, o celeiro do sertão pernambucano, terá no coração de cada sertanejo agradecido um altar de reconhecimento. [...]..»

21-11-1916- Diario de Pernambuco, goo.gl/5bIWWF, 3ª col. «[...]Desperta legítimo entusiasmo a maneira por que vem agindo o coronel Siqueira Campos no interesse do engrandecimento material do interior do nosso Estado.O espantoso desenvolvimento que tem conseguido dar ao comércio numa extensa zona dos nossos sertões: a linha de automóveis. - Rio Branco a Triunfo-, em construção, de sua iniciativa, embora contando com o auxílio dos poderes públicos da União e do Estado; a construção de casas modernas e confortáveis, na cidade de Triunfo; o calçamento da cidade do Crato, no Ceará, no qual despendeu de seu bolso particular cerca de 14 contos de réis; são fatos que positivamente revelam sua inconteste capacidade de trabalho e o seu espírito unicamente progressista. [...]»

15-12-1916 - Diario de Pernambuco, goo.gl/sdBOID, 7ª col.«Acha-se de viagem para o Pará em companhia de sua exma. família, o dr. Pinto de Castro, que foi um dos engenheiros encarregados da construção da estrada de rodagem de Rio Branco a Buique.

29-12-1916 - A Provincia goo.gl/zOLzli, 7ª col. «A Estrada de rodagem de Rio Branco a Triunfo. Será inaugurada, a 30 do corrente, pelo exmo. sr. dr. Manuel Borba, governador do estado, a estrada de rodagem, recentemente construída, de Rio Branco, ponto terminal da estrada de ferro central, a Triunfo, o maior centro comercial de todo o nosso sertão. S. exc. partiu ontem em trem especial, acompanhado do capitão Martiniano de Barros, dos drs. José Apolinário, José Bezerra e Turiano Campello, do farmacêutico Cícero Diniz, do coronel Siqueira Campos e fotógrafo Horácio Alves, pernoitando sua comitiva em Rio Branco. Hoje, o exmo. dr. Manuel Borba deverá ir, a cavalo, a Buíque, voltando à tarde para Rio Branco. Dai s. exc. seguirá amanhã, em automóvel, para Triunfo, inaugurando a nova estrada. No dia 2 de janeiro, o dr.Manuel Borba e aqueles que o acompanham deverão chegar a esta capital.»

30-12-1916 - Diário de Pernambuco. goo.gl/HFxqW9, 4ª  col.« A excursão do governador a Triunfo. Notas de um repórter. Dia 28 de dezembro. São 5 horas e trinta minutos. O Recife desperta. Há na estação central algumas pessoas de distinção. Chega num automóvel o dr. Manoel Borba, governador do Estado, em companhia de amigos.
Um trem prestes a partir. Mais cinco minutos. Abraços de despedida. A locomotiva apita dando sinal de partida. Entra no carro o governador: imitam-no os companheiros. O comboio larga e faz marcha de expresso.
Viagem mais ou menos agradável, especialmente nas primeiras horas, antes do sol aquecer. Houve ligeira chuva durante a noite. Pouco pó até Gravatá.
Dai por diante, muito sol, muito calor e muita poeira.
Até 13 horas, pouco mais ou menos, o trem para por alguns minutos em Pesqueira. Tinha demorado também n’algumas estações anteriores, enquanto a locomotiva se supria de água.
Em Pesqueira está um grupo de amigos do governo. Dão vivas à chegada do trem. Há umlunch preparado para os excursionistas. Sentam-se todos ao redor da pequena mesa. Inúmeras iguarias. Ninguém passa das saborosas uvas Moscatel de produção do município. Deliciosas e superiores às importadas do estrangeiro.
O trem prossegue galgando serras. Plena vegetação sertaneja de ambos os lados do leito da estrada. Aqui e ali, uma linha paralela de árvores frondosas, verdes, em contraste com o resto dos campos, tristemente crestados. É o indício dalgum riacho que se torna caudaloso no inverno mas no verão apresenta apenas alva esteira de areia.
Pouco antes de 15 horas o trem se aproxima de Rio Branco. Ouvem-se foguetes.
Há sinais evidentes de alegria, nas ruas embandeiradas.
Os excursionistas chegam enfim ao ponto terminal da estrada de ferro e hospedam-se na residência do coronel Joaquim Rodrigues da Silva, abastado negociante.
O comboio que os trouxe conduziu também três automóveis em que há de ser feita a travessia para Triunfo. Parte da população se acotovela para ver de perto o desconhecido meio de transporte.
Depois de ligeiro descanso, procede-se a uma inspeção dos automóveis. O governador aproveita o ensejo para visitar os trabalhos da nova estrada de rodagem que ligará Rio Branco a Buíque, distante 28 quilômetros.
Os autos percorrem a cidade em ligeiro passeio e penetram estrada nova, que o governo federal mandou construir pelo engenheiro Lincoln de Almeida.
Há 15 quilômetros construídos, faltando ainda todas as obras de arte. Já foram gastos nesse serviço 240 contos, inclusive o material para aquelas obras, que já está adquirido.
O que está feito é bom. O automóvel desliza sobre a estrada, como se o fizesse num trecho asfaltado.
Nos trabalhos da nova via de comunicação estão empregados cerca de cem homens, dirigidos por três engenheiros, inclusive o chefe. A obra teve início a 24 de maio do ano corrente e só em igual data do ano vindouro estará concluída e não for suspenso o crédito distribuído.
Dizem habitantes locais, em sua ironia, que o serviço estaria mais adiantado se não fosse a grande quantidade de engenheiros!…
Ao anoitecer, começou o tempo a fechar-se. Nuvens carregadas. Relâmpagos constantes. Ribombar de trovões.
Uma tempestade no sertão, recebida sempre com alvissaras, é coisa tenebrosa.
O horizonte parece constantemente iluminado pelas faíscas elétricas que cruzam o espaço e o estrondo pelo choque das nuvens dá ideia de forte bombardeio. Pouca chuva, em grossas bateras.»

31-12-1916 - Diario de Pernambuco, goo.gl/GQZ5PC, 5ª col. «Excursão do governador a Triunfo. Telegrama do nosso correspondentes especial:˜Custodia, 30. - O governador do Estado e sua comitiva aqui chagaram hoje ao meio dia, ficando assim inaugurados 120 quilômetros da estrada de rodagem Rio Branco-Triunfo.
Prosseguirão hoje mesmo na viagem, devendo pernoitar em Flores.»

04-01-1917 – Diario de Pernambuco, goo.gl/FXxYg1, 3ª col.«A Excursão do governador a Triunfo. O regresso. As impressões de sua excia.
De regresso de sua excursão a Triunfo, onde fora inaugurar a estrada carroçável recentemente construída entre Rio Branco, ponto terminal da estrada central e aquela importante cidade sertaneja, chegou ontem ao Recife o sr. dr. Manuel Borba, governador do Estado, em companhia das pessoas que até ali o acompanharam.
Daqui haviam partido no dia 28, em trem especial até Rio Branco. No dia 29, conforme noticiamos telegraficamente, s. exe. dirigiu-se a Buíque, tendo feito à cavalo o trecho do percurso ainda não servido pela estrada federal em construção. Acompanharam-no até ali e no regresso, que se fez no mesmo dia, 153 cavalheiros, proprietários e fazendeiros residentes naquela zona.
A 30 partiram de Rio Branco, em automóvel, s. exe. e a comitiva, pela nova estrada, com estações em Custódia, a 82 quilômetros, a Flores, a 134 quilômetros. Ai pernoitaram. No dia imediato partiram para Triunfo, galgando a serra da Baixa Verde, num percurso de 24 quilômetros.
S. exe. recebido festivamente em toda a travessia, demorou-se dois dias em Triunfo, onde a população lhe demonstrou o seu regozijo pela atenção dispensada à zona sertaneja com o fato de sua presença ali. A coincidência da primeira visita dum chefe de Estado, com os tradicionais festejos de Ano Bom, levaram a lendária cidade sertaneja  milhares de forasteiros  de toda a circunvizinhança.
Dali o sr. governador do Estado transmitiu pelo telégrafo os seus votos de bons anos aos auxiliares de seu governo e à imprensa pernambucana, bem como ao sr. presidente da República e ministro de Estado. Esses despachos foram aqui publicados no dia 1º.
No dia 2 após a visita aos estabelecimentos públicos municipais e à escola estadual, s. exe. e seus companheiros de excursão partiram de regresso, chegando a Rio Branco, as 21 horas.
As 22 1/2 horas (10 1/2 da noite) partiu de Rio Branco o trem especial que aqui chegou às 7 horas da manhã.
Na estação central foi sua exe. cumprimentado, apesar da hora matinal, pelas principais autoridades federais e estaduais, funcionários, comerciantes e numerosas pessoas gradas de todas as classes.
Mais tarde um dos nossos companheiros teve ensejo de ouvir do dr. Manoel Borba algumas das suas impressões a respeito da excursão que acabara de realizar:
A estrada que acabamos de inaugurar - disse s. exe. - representa um trabalho notável à vista dos limitados recursos com que foi realizada.
Obra de iniciativa particular, devida antes de tudo, a tenacidade do coronel Siqueira Campos, atual prefeito de Triunfo, teve apenas o auxílio de 35 contos dos ministérios da viação e agricultura, cerca de 15 contos do comércio de Recife. O mais é devido ao coronel Siqueira Campos.
As obras d’arte, na travessia dos rios e riachos, bem como alguns retoques e aperfeiçoamentos na construção, ficam a cargo do Estado.
Que a estrada é francamente carroçável, prova-o a recente excursão, feita em automóveis desde Rio Branco até o interior da cidade de Triunfo. D’antes os almocreves viam-se obrigados, em certos pontos da travessia, a desatrelar os animais e transportar a carga aos ombros, volume por volume.
Isso revela o valor do trabalho agora realizado.”
S. exe. referiu em seguida a boa impressão que lhe causou a cidade de Triunfo e a fertilidade dos terrenos em toda a circunvizinhança. Fez notar a distinção e boa ordem ali reinantes,  durante as festas de Ano Bom, sem que houvesse notícia do mais leve distúrbio, apesar de enorme afluência de gente dos arredores.
Citou a propósito o que, no início do seu governo, lhe dissera um distinto cidadão triunfense:
“De v. exe, ordem e paz a Triunfo que ali terá a terra mais tranquila e próspera do Estado.”
E no tocante à fertilidade do terreno, falou das diversas culturas da serra da Baixa Verde; café, frutas, fumo, cereais etc, mencionando também a subdivisão dos terrenos do município em pequenas propriedades, com grande vantagem para a variedade e intensidade das pequenas lavouras.
Referiu-se à instrução pública: “A instrução é deficiente. Visitei o edifício da escola estadual e achei-o em más condições de asseio e conservação e sem mobiliário - como o de Flores e a de Buíque. Mandei que o diretor das obras públicas procedesse a um exame para orçar as despesas a fazer e vou providenciar sobre os reparos necessários.”
S. exe. teve em seguida palavras muito amáveis para hospitalidade de que lhe proporcionaram os habitantes de Triunfo e demais lugares que visitou.
A respeito de Flores:
Tive também boa impressão da cidade. Vê-se que há um sopro de vida nova, depois de algum tempo de decadência. Há novas edificações ao lado das velhas casas construídas no tempo em que Flores era sede judiciária do alto sertão.
Estão todos os habitantes muito satisfeitos com a nova estrada que muito vai beneficiar. O que bem me impressionou ali foi a harmonia dos homens públicos. Dir-se-ia que só existe um partido político. Quando se trata do município, estão todos de acordo. Basta dizer que o presidente do conselho, por eleição unanime, é o chefe oposicionista. Visitei a cadeia que é a maior e a melhor do interior do Estado. É o lugar destinado ao cumprimento de penas de condenados dos municípios circunvizinhos. Encontrei lá, agora 24 homens sadios. Penso mandar aproveitar estes presos no serviço de conservação da estrada agora inaugurada e na construção de uma outra que se projeta dali para Princesa, distante 30 quilômetros. Para isso, o governo tomará as necessárias providências.
Com relação a Buíque:
Tive igualmente boa impressão de Buíque. Agradou-me bastante ver reunidas as crianças das escolas públicas, embora em época de férias. Nota-se que há um certo cuidado na instrução. Os alunos de ambos os sexos estavam uniformizados, cantaram o hino nacional e já estão ensaiando a educação física.
Não encontrei nenhum preso na cadeia. Há meses não há distúrbios nem crimes, o que denota a boa índole do povo.
“Em Custódia não encontrei escola estadual. Vou providenciar quanto esta falta.
Com a inauguração da nova estrada de rodagem, a cidade de Triunfo ficará há poucas horas do Recife: sete por estrada de ferro até Rio Branco e seis de automóvel em marcha regular de 25 quilômetros por hora.
Trata-se, como vê, d’uma considerável vantagem conseguida com um pouco de esforço e boa vontade.”
Concluindo, disse s. exe.:
Não pouparesforços, no sentido de facilitar, quanto possível, o desenvolvimento das estradas através do interior de nossa terra, e escolas que facilitem ao bom povo sertanejo o conforto material e espiritual de que tanto carece.
“É este o meu dever.»


23-03-1917–Jornal Pequeno, goo.gl/0JQf1M, 1ª col. «O governo federal fez entrega ao governo deste Estado de todo o material destinado à construção de uma estrada de rodagem de Rio Branco a Buíque.Os trabalhos dessa estrada, que foram começados pelo governo da União e suspensos à falta de verba, vão agora ser concluídos pelo governo do Estado.»
08-07-1917 - A Noite (RJ),  goo.gl/5lWXld , 6ª col.: «As estradas de rodagem de Pernambuco. Alagoa de Baixo (Pernambuco), 8 (Serviço especial da A Noite) - A expensas da municipalidade e com auxílio de alguns comerciantes e criadores deste município, começaram, ontem, os trabalhos da estrada de rodagem desta cidade à povoação de Algodões a encontrar também a estrada Rio Branco a Triunfo. Reina por isso regozijo em toda a população deste município. A estrada em construção será inaugurada pelo dr. Manoel Borba, governador do Estado, que virá de Recife até aqui em automóvel.»

1917 - goo.gl/xmYn35, página 6 (=5/50): «Relatório dos presidentes dos estados brasileiros. Estradas e caminhos carroçáveis. Também auxiliou o estado na construção do caminho carroçável de Rio Branco a Flores e Triunfo, já mandando para ali pessoal a fim de auxiliar os serviços, já se interessando perante o governo da união para a concessão de um auxílio monetário. Este caminho que ficou concluído em fins de dezembro último tem o desenvolvimento de 160 quilômetros. De Rio Branco a Custódia: 83 km [...]». Mais: goo.gl/zRwdXf

07-03-1918 – Diario de Pernambuco, goo.gl/bGE69z, 2ª col. «[...] Tendo o governo federal interrompido a construção da estrada de rodagem entre Rio Branco e Buíque, foram por solicitação minha cedidos no Estado, a título precário, todos os materiais e aparelhos existentes no local das obras, assumindo o governo de Pernambuco o compromisso de levar a termo a referida construção.»

01-04-1918– Diario de Pernambuco, goo.gl/1l0ois, 5ª col.«[...] subvenção concedida pelo governo do Estado [...] despesas com a estrada de rodagem de Rio Branco a Buíque
12-07-1918 –Diário de Pernambuco, goo.gl/CtfRe9, 6ª  col.«Ponte do Salobro e outras pequenas obras d´arte na estrada de Rio Branco a Buíque [...].»
18-09-1919 - A Provincia, goo.gl/hkXh24, 7ª col.: «Os jornais dizem que se inaugurou ontem mais uma estrada, a de Rio Branco a Buíque, estrada para a qual concorreu muito o governo federal [...].»

23-09-1919 – A Provincia, goo.gl/JaKG2D, 2ª col.: «Estrada para Buíque. “[...] Porque efetivamente, construir 28 longos quilômetros de estrada de rodagem em QUATRO anos já se chama trabalhar. Pois bem, depois de quatro anos de serviços já se pode ir de automóvel a Buíque! Projetaram-se e levaram-se a efeito grandes festas para o ato de inauguração. Na véspera foi um sábado, à noite eu presenciei o começo dos festejos nesta pacata vila de Rio Branco, ex-Olho d´Água dos Bredos [...]».

1919 - goo.gl/6zeKL2, pág.16 (=15/98): “Relatório dos presidentes dos estados brasileiros. [...] 4º Centro - Rio Branco. Foi nesse centro de estradas e caminhos carroçáveis onde mais intensa se faz sentir a ação do governo no que concerne a essas vias de comunicação, pois é nele que tem origem as estradas e caminhos de penetração na zona sertaneja do estado [...] Estrada de Rio Branco a Buíque - Essa estrada foi projetada e iniciada pelo governo federal mas, tendo-se esgotado o crédito destinado à sua construção, foi esta interrompida em começos de 1917 quando já se achavam prontos cerca de seis quilômetros, faltando apenas as obras de arte [... ] Rio Branco a Triunfo[...].”

07-10-1923 - A Provincia – 1ª  col. goo.gl/g8Jt2r, «[…] Por falar em estradas de rodagem veio-nos à memória que o único município, talvez, de Pernambuco que não tem estradas é o município de Pedra. E o município de Pedra fica apenas a cerca de 20 quilômetros de Rio Branco, sem uma serra a cortar, sem pedras e sem outros empecilhos além de meia dúzia de córregos sem importância. Não vamos exigir que se construa uma estrada de rodagem de Rio Branco a Pedra não, porém, exigir que se faça uma estrada carroçável que possa ser transitada por automóveis e caminhões com pequenos bueiros nos córregos, mesmo sem grandes serviços porque esses são desnecessários - umas pontinhas de madeira sobre bases de madeira mesmo ou tijolo - eis tudo. Com quinze a vinte contos se teria de Rio Branco a Pedra uma estrada invejável, dependendo apenas de pessoas competentes, (particulares, porque as do governo não gostam de trabalhar) e Pedra progrediria fatalmente. [,,,].»

20-12-1924 - Diario de Pernambuco, goo.gl/V3Rncr , 5ª col. «Obteve parecer favorável do Departamento de viação o pedido de um auxílio de 10 contos para as obras da estrada de Rio Branco a Pedra.»

01-01-1925 – Jornal do Recife, goo.gl/VHvDiJ, 4ª col. «Estradas sem roteiro. [...] E quem quer que se aventure, por necessidade ou desafio, pervagar os sertões, em Pernambuco, a partir dos limites onde termina a estrada de ferro, para logo uma angústia mortal o assedia, ao defrontar o maltrato dos caminhos, ressentindo-se de indicações das rotas, quer vicinais quer longitudinais, censura a que não escapa a má orientação administrativa em demandar melhoramentos de efeitos aleatórios que por natureza exigem provas de acuidade menos deplorável. Onde se viu construir 36 quilômetros de estradas de rodagem com um orçamento, a título de verba suficiente, de quinze contos de réis? A estrada Rio Branco a Pedra de Buíque vai apenas custar 15 contos!»

1927 - Almanak Adm., Merc. e Ind. RJ, goo.gl/wq8e80, pág. 1012, vol.III. 3ª col. «Estado de Pernambuco - municípios Barão do Rio Branco. Vila e sede do 7º distrito do município de Pesqueira, ponto final da estrada de ferro da Great Western ofBrazil Railway Co. da linha partindo do Recife da estação de Cinco Pontas. Tem 3 estradas de rodagem, sendo para Buíque, Triunfo e Pedra. Possui 900 casas e tem 4.500 habitantes. »

20-06-1931 - Diario de Pernambuco, goo.gl/C4HPD1 3a col.«Problemas sertanejos. Mário Melo [...] as estradas do Rio Branco são regulares. Mas o percurso pelo território da Alagoa de Baixo é horrível. Faz quinze anos acompanhei o governador Manoel Borba na inauguração da rodovia Rio Branco-Triunfo. Tem-se a impressão - e creio que é mais do que impressão porque a própria verdade - de que nunca mais houvera uma enxada a beneficiar aquilo. Horrível, no território da Alagoa de Baixo. Subitamente a estrada melhora. É o início do território de Custódia. O prefeito de Custódia, como o do Rio Branco, teve a boa orientação de melhorar a sua estrada, de um extremo ao outro do município. [...].»

29-01-1946 – Diário Oficialbit.ly/1OWVN8t 2ªcol.: «Relatório N. 3 – Estrada Arcoverde-Pedra - Encontramos na cidade de Arcoverde o condutor técnico Manoel Bolitreau, encarregado dos serviços de engenharia da 5ª Residência, com o qual íamos percorrer as obras em andamento, de uma estrada que se destina a estabelecer a ligação de Arcoverde-Pedra e daí a Garanhuns com passagem pela vila de Venturosa (antiga Boa Sorte). Encontra-se em construção o primeiro trecho até a Pedra. A obra vem sendo por demais demorada e resta muito ainda a realizar em movimento de terra, acabamento e muitas obras d´arte. O maior defeito que encontrei porém, é a falta da mais elementar noção de ética profissional do empreiteiro José Vitor dos Santos. Entre outras faltas fez ele a tentativa de burlar a medição de obras, incluindo no cálculo, grande parte já medida anteriormente e paga. Descoberta a tentativa de dolo, teve a ousadia de escrever ao chefe da residência oferecendo compensação para que o mesmo acobertasse a bandalheira. O funcionário lealmente prestou informações por escrito em processo que foi encaminhado à Secretaria de Viação. Vou despachar mandando cancelar a "ordem de serviço" do empreiteiro improbo. Além desse detalhe grave, o seu trabalho é mal conduzido. Trata-se do mesmo indivíduo que havendo recebido a soma de 10 mil cruzeiros para a limpeza de um pequeno açude da cidade de Pedra, não apresenta serviços que justifiquem o dispêndio daquela soma. Deixou de realizar a parte principal que seria uma elevação do sangradouro, sob o fundamento de já ter haver dispendido a importância recebida. Trata-se de serviço que escapava a qualquer fiscalização, e agora tudo que resta é uma prestação de contas sem valor, partindo de gente sem a necessária responsabilidade.»

21-06-1947 – Diário Oficial, bit.ly/1Idr6HC, 2ªcol.: «Requerimento N. 184 - Requeremos, por intermédio da Mesa, ouvida esta Assembleia, seja encaminhada ao Governo do Estado a sugestão que ora formulamos, no sentido de que o competente órgão administrativo atenda à conveniência da alteração do traçado constante do projeto de construção da rodovia Arcoverde-Garanhuns de modo a serem no mesmo contempladas as vilas de Salobro e Capoeiras, respectivamente dos municípios de Pesqueira e São Bento do Una. Justificação: O Governo do Estado está levando a efeito a construção de uma rodovia destinada a ligar o município de Arcoverde ao de Garanhuns. O traçado constante do projeto da mencionada estrada é o seguinte: Arcoverde, Pedra, Venturosa, Caetés e Garanhuns. Ocioso torna-se salientar a importância sob os aspectos econômico e comercial, de que se reveste a execução da referida obra para uma vasta, populosa e produtiva zona do nosso território. Com ela se terá facilitado um intenso e avultado intercâmbio dos mais variados produtos[...].»

1961 - O Município de Arcoverde, Teófanes Chaves Ribeiro, Arcoverde, pág.14: «Departamento das Secas - O Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, 3º Distrito, sediado nesta cidade, muito tem contribuído para o progresso do município. Foi, em junho do ano de 1932, no rigor da seca que assolava o Nordeste, que o governo tomou a seu cargo amparar a região pernambucana atingida por esta situação climatérica, criando em Arcoverde, então Rio Branco, um serviço subordinado à Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas. Inicialmente os trabalhos foram dirigidos pelo engenheiro Francisco de Paula Pereira de Miranda. Em seguida, isto é, em julho daquele mesmo ano foi transmitido o cargo ao engenheiro Francisco Saboia de Albuquerque. Posteriormente, a sede desses serviços passou a denominar-se Comissão de Estudos e Obras nos Estados de Pernambuco e Alagoas, e foi fixada em Arcoverde graças ao empenho do governo revolucionário do município, junto ao então ministro José Américo de Almeida.
Foram grandes as perspectivas abertas com este acontecimento aos destinos de Arcoverde.
Os trabalhos desenvolvidos pela Inspetoria, que em construção de estradas de rodagem, que em perfuração e instalação de açudes públicos e particulares, têm constituído uma fonte de realizações de inestimável valor para o município, bem como para outras zonas castigadas pelo rigor das longas estiagens.
Os seus primeiros anos foram marcados por trabalhos intensos, muitos dos quais tiveram como estaca inicial Arcoverde; pois daqui partiram as construções das estradas de rodagem: Arcoverde-Mimoso-Caruaru, Arcoverde-Pedra, Arcoverde-Algodões-Custódia-Serra Talhada-Salgueiro-Parnamirim. E assim esses trabalhos iam-se distanciando em procura das metas a serem atingidas, previamente estabelecidas no plano rodoviário, na zona delimitada pelo polígono das secas.
Após 17 anos de constantes realizações, essa repartição conseguiu levar as cidades mais longínquas do interior do Estado de Pernambuco a sua linha tronco, contribuindo para aumentar consideravelmente o intercâmbio comercial entre o Sertão e a Capital, sendo Arcoverde o ponto de comunicação por excelência entre as duas zonas.»




Coronel Siqueira Campos, em foto do Jornal do Recife, de 11-11-1915. goo.gl/GWnDhk. O coronel Manuel Siqueira Campos é entrevistado pelo Jornal de Recife. Ele faleceu em 30-07-1928, Jornal Pequeno. 4ª col.goo.gl/UvIrIk

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segunda-feira, 27 de março de 2017

SANBRA de Arcoverde, hoje CECORA

Por Pedro Salviano Filho 
(Coluna Histórias da Região - edição N. 296 de março/abril de 2017 - Jornal de Arcoverde) 

Sanbra, inaugurada em 1919. Desde 1986 Cecora: goo.gl/maps/pU8Na). Foto do acervo O. e C. Neves, por cortesia do Sr. Carlos Carvalho (Recife). 

A cultura do algodão no sertão pernambucano induziu a industrialização do próspero distrito pesqueirense. Em 1919 foi inaugurada em Rio Branco (depois Arcoverde) a Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro - Sanbra. Muitas gerações participaram das atividades dessa importante firma no progresso do município, registrado por vários historiadores. Até um famoso incêndio, ocorrido em 1925 (há 92 anos), tem seu resgate detalhado a partir de um jornal da época. Em 1983 a SANBRA é adquirida pelo município e suas edificações são adaptadas para comportar o Centro Comercial Regional de Arcoverde, Cecora, inaugurado em 1986.


A economia algodoeira em Pernambuco. Da colônia à Independência. https://goo.gl/bPZXjE José Ribeiro Junior. R. bras. Hist., São Paulo, set.1981
Página 235: «[...]O algodão em Pernambuco entre a década de 1760 e a de 1820, período no qual procuramos estudar a cultura algodoeira desde a sua introdução até o momento em que a planta atinge níveis de produção comerciáveis, integrando o agreste e o sertão na economia de mercado. Planta essencialmente tropical, o algodão era conhecido no Brasil pelos indígenas desde o primitivo século da colonização[...].Página 237: O surto do algodão em Pernambuco, como em todo o nordeste, localizou-se nas regiões semiáridas e subúmidas.[...]. Pág. 238: [...]Em 1816, o maior proprietário de que se tem notícia, na lavoura do algodão em Pernambuco, era Antônio do Santos Coelho (capitão-mor) instalado nas terras de Cimbres, solo de excelentes qualidades. Ele possuía 600 a 700 escravos e, segundo se pode concluir, dominava a produção algodoeira na região. Seus genros tinham 315 escravos. Constavam, inclusive, queixas contra eles de usurparem terras dos índios e a outros proprietários.»

Carregador de algodão. Viagens ao nordeste do Brasil. Henry Koster. Página 206 

Viagens ao nordeste do Brasil. Henry Koster. Cap.XVII.  2ª edição, Recife-PE, 1978, página 353.
1809 - «Agricultura. Algodão. Essa valiosíssima planta não se tornou menos preciosa para Pernambuco que a cana-de-açúcar, devido aos grandes pedidos de algodão desta província para as vizinhas e para os mercados britânicos. Novas fundações para o plantio de algodão são criadas anualmente, não obstante as dificuldades que surgem para a realização desse objetivo. Os distritos escolhidos com esse propósito são geralmente no interior, como melhores indicativos para o crescimento, e distantes das praias do mar, áridos, e algumas vezes escassamente supridos de água fresca. Há mesmo falta absoluta d'água, em várias ocasiões, ao mesmo tempo em que regiões próximas estão perfeitamente supridas nesse particular. A opinião geral é que o algodão não nasce nas terras próximas ao litoral e que as frequentes mudanças atmosféricas lhe são prejudiciais. As estações do inverno e do estio são mais regularmente marcadas a certa distância do mar, e nessas regiões as variações sucessivas dependem menos da superabundância das chuvas do que de sua escassez. O algodoeiro requer que o tempo esteja seco durante uma boa parte do ano. Se as chuvas caem quando o capucho está aberto, a lã está perdida, tornada amarela, diminuindo e ficando completamente inútil para o uso. O solo preferido para sua semente é o de barro vermelho escuro, ocasionalmente veiado de amarelo, vezes extremamente duro nos longos intervalos sem chuva. Os algodoais anualmente mais e mais se alongam para o interior, sobretudo nos planos do Sertão que permitem esse avanço. As plantações dessa espécie que estavam antigamente próximas da costa, são hoje utilizadas noutros gêneros de sementes. A constante exigência de novas terras requerida pela cultura do algodão, porque se julga necessário deixar a terra em repouso por vários anos antes de trabalhá-la novamente, pode, de alguma forma, explicar esse fato. Pode ser, igualmente, que o desenvolvimento rápido das populações ao longo do litoral possa ter determinado esse efeito, forçando a saída daqueles que cultivam um objeto de comércio, para dar lugar aos outros que cultivam os elementos necessários aos habitantes locais. O algodão é somente vendido em caroço pelo plantador, isto é, antes de ser separado da semente, e muitas pessoas encontraram meios de subsistência preparando-o para os mercados de exportação, mas como o labor e a conveniência aumentam nessa situação, os negociantes se instalam perto dos algodoais. Vão recuando na mesma proporção. Alguns anos antes via-se, a duas léguas do Recife, numerosas máquinas de descaroçar o algodão. Há poucos anos foram mudadas para Goiana e atualmente os principais pontos desse mercado são Limoeiro e Bom Jardim, lugares, como já descrevi, com muitas léguas de distância da costa. 
As terras são limpas para plantar algodão na maneira ordinária, cortando-se as árvores e queimando-as, e os buracos para semear são cavados em forma quadricular, numa distância de seis pés, uns dos outros, e são postos, comumente, seis sementes em cada escavação. Nas colônias britânicas é necessário semear de oito a dez caroços. O tempo para plantar é em janeiro, depois das primeiras águas, ou início do ano, logo após as chuvas caírem. O milho é comumente plantado entre os algodoeiros. Três, e algumas vezes quatro safras são obtidas com as mesmas plantas, mas a segunda colheita é a que dá, geralmente, os melhores tipos.
O arbusto é de bonita aparência, especialmente quando está coberto de folhas e cheio de lindas flores amarelas, mas os capulhos começam a abrir e a folhagem a secar, e seus finos galhos esparsos ficam despidos, e a planta recorda muito a uma negra muita de groselhas que há longo tempo não se poda. O algodão é colhido em nove ou dez meses,
A maneira para descascar o algodão é simples e podia ser mais simples ainda. Dois pequenos cilindros canulados são postos horizontalmente, um tocando o outro. Cada extremidade desses cilindros, numa ranhura, há uma corda enrolada, ligada a uma grande roda que está distante poucas jardas, onde fixam duas manivelas que são movidas por dois homens. Os cilindros são dispostos a movimentarem-se em sentido contrário, de forma que o algodão é posto em um deles e levado para o outro lado mas as sementes ficam porque a abertura entre os cilindros não é bastante larga para facilitar-lhe a passagem. A máquina usada nas colônias britânicas parece ser de construção maior mas é bem mais simples, porque o cilindro é movido pelo pé da pessoa que maneja o algodão. Depois dessa operação restam ainda algumas partículas das sementes quebradas, assim como outras substâncias, que devem ser retiradas. Para este fim, amontoa-se o algodão e o batem com paus grossos, processo que muito danifica a fibra, rebentando-a, e como o valor da procura para o fabricante depende sobretudo do comprimento da fibra, tudo devia ser feito para que esse processo fosse substituído.
As sementes aderem “firmemente umas às outras no espulho”, informa mr. Edwards falando de uma espécie das colônias britânicas, a qual denomina hidney-cotton, dizendo crer que seja “o verdadeiro algodão do Brasil”. O algodão amarelo de nanquim também é encontrado em Pernambuco, mas não constitui um artigo de comércio, mas é olhado como uma curiosidade. Vi igualmente algumas espécies de algodão selvagem mas como não obtive amostras não me é possível pretender dar descrição.
Os lucros alcançados pelos plantadores de algodão, nos anos favoráveis, são enormes mas as perdas experimentadas são frequentes. Ás vezes toda uma safra, de belo aspecto, é totalmente perdida. Certos anos são improdutivos ou n´outros, depois de promessas lisonjeiras, o joio, as lagartas, a chuva ou os estios excessivos, destroem todas as esperanças de uma futura colheita. A outra grande fonte do agricultor, a cana-de-açúcar, não é tão sujeita aos muitos e desastrosos revezes, e quando um ano é desfavorável, o imediato satisfará todas as despesas realizadas. Verifiquei que o mercado é fracamente afetado pelas esperadas quedas das safras, porque é digno de lembrança que, em país assim vasto, um distrito escapa do desastre enquanto os demais se arruínam.
A qualidade do algodão que é produzido na América do Sul, seja ao norte ou ao sul de Pernambuco, é inferior ao desta província. O algodão do Ceará não é tão bom e o do Maranhão é menos ainda. O algodão é comodamente embarcado nos portos desses dois pontos. Seguindo de Pernambuco para o sul, o algodão da Bahia não é bom e a pequena quantidade produzida no Rio de Janeiro é menos próprio que a baiana.
Tratando do açúcar e do algodão, expus as linhas essenciais que diferenciam os produtores das Antilhas dos do Brasil. Os meus leitores que tiverem interesse, envio-os ao citado e bem conhecido livro que consultei (History of the West-Indies, por Edwards).»

1919 - O Município de Arcoverde, 1951, Teófanes Chaves Riveiro, Prima, página 25: «Indústra – Apenas se encontram em Arcoverde, pequenas indústrias: sapatarias, movelarias, fábricas de bebidas, de lacticínios etc. Seu principal estabelecimento fabril, é a Usina de beneficiar algodão, pertencente à Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro S/A (Sanbra), cujas instalações foram montadas pelo engenheiro Francisco de Assis Brandão Cavalcanti e inauguradas no dia 8 de dezembro do ano de 1919. É acionada por dois motores Deutz num total de 265 HP. Nos períodos das saíras mantém duzentos operários, mais ou menos, entre homens e mulheres. Seu movimento de compra de algodão no ano de 1950 atingiu a quantia de Cr$ 31.701.126,80. Sanbra tem em sua gerência, atualmente, o sr. Emanuel Veras.»

14-08-1920 - Jornal do Recife,   goo.gl/C9M4mm  , 1ª col.: A coluna “Pelos municípios” resumia os principais acontecimentos de Rio Branco. Entre eles: «[...] Não regateamos aplausos àqueles industriais pelo melhoramento que acabam de introduzir nesta vila. - Também estão bem adiantados os trabalhos da construção da fábrica de beneficiar algodão, de propriedade da Companhia Algodoeira Nordeste do Brasil. (Do correspondente). Rio Branco, 10-8-920.»

24-09-1925Jornal do Recife, goo.gl/gjvMBg  , 1ª col.: De Manoel Gregório Teixeira da Lapa. Informações diversas de Rio Branco sobre Lampião, Banco do Brasil, incêndios
«Incêndios - À semana passada foi destruída pelo fogo uma carroça carregada de algodão e desgarrada providencialmente do trem que, poucos minutos antes das 15 horas, saíra da estação local; três outras arrojaram-se linha abaixo e foram de encontro a uma barreira sobre a qual montaram, correndo [..] cerca de dez metros ou mais. Foi um espetáculo terrível[..] de carros carregados de algodão despedaçando-se uns contra os outros e quase sepultando nos escombros a "dulçurosa" pessoa de Simão Rocha, o proprietário da afamada goiabada marca TIGRE, bem como dois aleijados boiadeiros que fizeram a esquisita "cavalgada das walkyrias" no carro-brake, implorando misericórdia e cerrando os olhos como para diminuir a dor da morte. Graças a Deus, porém, nem perdemos a boa companhia do Rocha, nem a carne verde subiu de preço, porque os boiadeiros nada sofreram.
Hoje tivemos o desgosto de assistir à destruição por novo incêndio, dos grandes armazéns da usina de Pinto Alves & Cia (Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro). Seriam seis horas da manhã quando se notaram as primeiras nuvens de fumo emergentes do teto da usina. Incêndio! diziam uns meio surpresos, enquanto outros contestavam: Expurgo de algodão pelo funcionário que a higiene nos remetem, coberto por um sebaceo bonet do D.S.A.! Afinal, após alguns minutos de indecisão e bons augúrios, a população de Rio Branco foi sacudida pelo brusco acontecimento e, dentro em pouco, estava coalhado de gente de todos os matizes o grande pátio da usina cujas dependências foram tomadas pelo respeito abnegado de todos quantos se empenharam na luta contra o ígneo elemento. Subiam as línguas de fogo contra as quais pouco valiam os esguichos mirrados dos "fire-extinguishers" da usina lamentavelmente desprovida de material de urgência em casos desta natureza: foi quando o povo apelou para as latas d´água para os ganchos de puxar fardos de algodão, para a apanha do ouro branco, para o esvaziamento dos depósitos da usina, para o ataque generalizado e intenso ao fogo cujas labaredas lambiam já o teto e soltavam gargalhadas rubras para a rua, rasgando os lábios graníticos do fortíssimo casarão de cimento armado. Espetáculo tétrico e, no mesmo tempo, empolgante, como todos esses em que o fogo toma parte! Uma desolação geral, um verdadeiro afã em prol da usina que dá trabalho a tantos operários, que tanto impulso empresta ao programa da terra do Jé. E foi verdadeiramente confortável e edificante o desprendimento, a verdadeira abnegação, a bravura quase temeridade com que se arrojaram ao combate empregados e operários da usina, negociantes dos mais importantes da localidade, o próprio molecório da rua recrutado por Boleiro, enfim todos quantos não se deixaram ficar em casa, ou porque sejam preguiçosos, ou porque tenham na alma a eterna desconfiança dos incêndios cujo aspecto os acompanhe, ou porque lhes pareça sempre nada o sofrimento e a dor alheios. Foi um trabalhar sem tréguas em que todas as boas vontades se confundiram e se ajudaram, até que, por cerca de meio-dia, baixava a fúria do sinistro, fora localizado o incêndio, embora com a destruição de quinhentos e muitos fardos e sacas de algodão, todo o stock da usina neste dia. Muito sofreu o algodão em rama quase todo molhado e outra vez ciscada por força da manobra a que o sujeitaram com o fito de livrá-lo das chamas. Distinguiram-se pelo esforço e abnegação no afanoso trabalho contra o fogo o sr. Ignácio Mariz, auxiliar da usina, um possante negro trabalhador da firma Nebrídio, Campos & Cia., os quais se atiravam às chamas desassombradamente, derramando latas d´água e conquistando fardos e sacas de algodão à fúria do inferno desenhado no recinto rubro; e os senhores Ernani Gomes, Cícero Ferreira, Zezé Cavalcanti, Joaquim do "burro", este popular funcionário da Great Western, um moço funcionário da usina Novaes, o coronel A. Velloso, o sr. Jerônimo Jé, o sargento Jayme, o dr. Delphim Araújo que, apesar de doente, tomou encargo de preparar as soluções para os extintores, o sr. João Manso de Barros, um português empregado de Joaquim Soares, o sr. Manoel Fernandes, um viajante de Garanhuns o qual muito trabalhou, o sr. Cícero Cordeiro, o coronel Japyassu e o capitão Fiuza,  gerente da usina, o qual se encontrava em viagem para Caruaru, tendo sido chamado por telegrama urgente, quando passava por Pesqueira no comboio da Great Western. Inúmeras outras pessoas, inclusive operários da usina entre os quais muitas mulheres e meninas, trabalharam à porfia; não lhes citamos os nomes, porque esse Jornal é pouco e nós os ignoramos, entretanto, os srs. Pinto Alves & Cia, e a Sociedade Algodoeira devem enxergar na população de Rio Branco, uma verdadeira legião de amigos e abnegados. A polícia fez "hombro armas!" e montou guarda aos escombros, mas - exceção do sargento - nenhum soldado fez exercício de bombeiros, o que certamente é reprovável. Esteve no local do alinstro o subdelegado sr. Francisco Jé. O empregado da usina, chamado Esmeraldino, portou-se com muita galhardia no serviço de ataque ao fogo, bem como o maquinista e foguista da mesma empresa, ambos esforçadíssimos no desempenho de suas obrigações. Numa palavra ninguém se poupou ao serviço; todos deram provas do espírito fraternalíssimo deste povo nordestino. Já em meio ao sinistro, foi adotado o alvitre de canalizar água do poço da usina para os salões abrangidos pelas chamas; mas faltavam canos. Foi quando a exma. viúva Rodrigues mandou abrir seus armazéns e fez transportar num dos caminhões todo o sortimento de canos e material necessário à nova tentativa imediatamente posta em prática pela tenacidade do jovem funcionário filho do dr. Elyseu, dos eletricistas da firma Brandão. Cavalcanti, ambos sobremodo esforçados e prestativos, do maquinista da usina e do viajante de Garanhuns, todos aliados à boa vontade, ao desprendimento e à calma com que o sr. Cícero Ferreira distribuía o material trazido dos armazéns da firma que dirige, demonstrando ele próprio a estupenda força muscular de que é dotado, além do sangue frio com que encarava a situação. Todavia, ninguém pode contestar que as honras do supremo esforço e heroísmo cabem a Ignácio Mariz, ao negro da casa de Nebrídio e a Delphim Araújo, cada qual na esfera dos misteres a que se dedicaram.
No local do sinistro vimos também o inspetor do Banco do Brasil, sr. Atahualpa Guimarães, acompanhado do gerente Álvaro Pinheiro.
Ai está a primeira consequência do expurgo a que obrigaram o algodão, para livrá-lo do micróbio da peste.
Hoje à tarde reuniram-se os comerciantes de algodão e passaram dois longos despachos telegráficos, um ao dr. Amaury de Medeiros, e outro ao prefeito de Pesqueira, o major Cândido Britto, solicitando a interferência de ambos no sentido de fazer cessar a inconveniente providência de expurgo do algodão enfardado para embarque. Porque, a julgar pelo princípio, a vila de Olho d´Água dos Bredos se arrasa com outro incêndio de algodão expurgado. Vamos ver qual providência nos dará o esforçado diretor da Higiene Estadual.»
28-02-1935 - Diário de Pernambuco, goo.gl/yVQxfx , 6ª col. Pelos municípios. Rio Branco. Embaixada acadêmica carioca visita Sanbra etc.
21-12-1937 - Diario do Estado, bit.ly/1QBt8Hi , 1ª col.: “Instituto de Pesquisas Agronômicas. Relatório de inspeção. Sanbra” (2ª col.).


Minha cidade, minha saudade, Recife-PE, 1972 - Luís Wilson, página  399: «Meu pai me contou que está com o Bar da rua Grande, em Rio Branco, desde 1926. Eu pensava que ele o havia comprado alguns anos depois, mas o engano é meu.
Eu tinha também a impressão, de que um, grande incêndio que houve na SANBRA, no meu tempo de menino, havia sido em 1928.
Esmeraldino, que chegou a Rio Branco em 1913 e trabalhou na “ Algodoeira", quase que toda a sua vida, contou-me, no entanto, da última vez em que estive em Arcoverde, que aquele incêndio foi em 1924. Mais de 250 fardos de algodão de 250 quilos,  mais de 70 fardos menores e muitas sacas de mamona pegaram fogo. Os jumentos da cidadezinha não pararam, carregando água do "seu" Jé até à tarde.» 


Município de Arcoverde (Rio Branco). Cronologia e outras notas. 1982 – Luís Wilson, Recife-PE. Página 103.
«Mais de 250 fardos de algodão de 250 quilos, mais de 70 fardos menores  e muitas sacas de mamona pegam fogo na Sanbra (Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro), em Rio Branco, nosso maior incêndio em todas as épocas. Não sabemos, aliás, de outro incêndio, entre nós. As carroças de bois, compridas e de 4 rodas, de “mestre” Leôncio, de Zé Ferreira, de ”seu” Albino, e os jumentos da cidadezinha passaram o dia carregando água de “seu” Jé (Cel. Jerônimo Cavalcanti de Albuquerque Jé), no fim da “rua”, coisa alguma, evidentemente, podendo fazer para apagar o fogo.
“ A Sanbra, cujos edifícios foram inaugurados no dia 8-12-1919, era nosso principal estabelecimento fabril, acionado por dois motores Deutz de 265 HP, mantendo no período da safra cerca de 200 operários.»

Centro Comercial Regional de Arcoverde Vereador Ulisses de Britto Cavalcante: Cecora, fundado em maio de 1986. Foto PSF nov.2015.

Arcoverde. História político-administrativa. Brasília-DF, Sebastião Calado Bastos, 1995. Página 198.
«Logo em seu primeiro ano de mandato, o prefeito Ruy de Barros realizou um feito de caráter administrativo da maior relevância, fazendo-o merecedor do respeito de todos os arcoverdenses.
Contando em todos os momentos com o governador Roberto Magalhães, o executivo municipal resolveu fazer uma proposta à Sanbra – Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro, para aquisição de toda a área ocupada por essa empresa, inclusive as edificações nela existentes.
José Valdeci do Amaral, funcionário da Sanbra em Recife e o dr. Inácio Menezes, ex-gerente, tiveram fundamental importância no negócio, ao fazerem gestões junto ao representante da firma em São Paulo, o espanhol Herrera.
A proposta do prefeito, que viria a ser aceita, totalizava oitenta milhões de cruzeiros, sendo trinta milhões de entrada e mais cinquenta milhões parcelados.
O governador garantiu a parcela inicial de trinta milhões de cruzeiros, importância paga em 10 de dezembro de 1983, por ocasião da assinatura do instrumento formal de compra e venda e a prefeitura apresentou carta de fiança bancária em cobertura das cinco parcelas restantes de dez milhões de cruzeiros cada uma.
Efetivava-se assim um grande empreendimento, que viria aumentar substancialmente o patrimônio da municipalidade, sem contar os benefícios decorrentes da utilização desse complexo arquitetônico, pois no Cecora foram instalados duzentos e oitenta boxes, dezesseis mil metros quadrados de calçamento, quarenta e oito postes de eletrificação, posto de saúde e comissariado, para relocação da feira livre.
Em convênio com a LBA procedeu-se à implantação da 1ª etapa do Espaço Cultural no Cecora.»

Mercado Público de Carnes Joel Vilela da Silva, inaugurado em 17-10-2015 no Cecora. Foto PSF nov. 2015.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Higiene sertaneja

Por Pedro Salviano Filho 
(Coluna Histórias da Região - edição N. 295 de janeiro/fevereiro de 2017 - Jornal de Arcoverde) 

 
Apesar de incomum, o assunto ora abordado, não deixa de ser também inusitado na história da nossa região, embora provocativo. Como eram os hábitos e costumes dos nossos desbravadores sertanejos no que concerne aos cuidados de higiene? 
Novamente, recorremos a algumas bibliografias, jornais de época e vídeos para apresentar respostas referendadas e com links para estimular mais pesquisas pelos leitores e, talvez, novos historiadores.

1814 - No livro Elementos de Hygiene, da Academia de Ciências de Portugal. Seção I  Cap  V, pág 25 (48/383), goo.gl/wwE62x, entre muitas curiosidades, ensina-se a necessidade da manutenção saudável das evacuações intestinais: «Devem ter muito cuidado em ter regulares as evacuações Malvinas, usando a ser preciso, de clisteres resolutos, por ex. raiz de taraxaco, fragaria etc., em cozimento; no qual se infunde camomila, arruda etc.»

Vídeos:

Invenções e descobertas - História das regras de higiene, goo.gl/WTZi1T .
Passado a limpo. A história da higiene pessoal no Brasil, goo.gl/gVxBmI , patrocinado pela Kimberly-Clark Brasil. Interessante vídeo, baseado no livro de Eduardo Bueno, narrado por cantadores de cordel.

Minha cidade, minha saudade. Recife, 1972 - Luiz Wilson, página 192

«Oliveira Lima foi a Rio Branco em 1919, acompanhado do prof. Ulisses Pernambucano e de mais 2 ou 3 amigos, num “automóvel de linha” especial. Nas noites em que dormiu, na cidadezinha, Agostinho de Holanda (seu amigo e de sua esposa, dona Flora, de Vitória de Santo Antão e do engenho Cachoeirinha), teve de arranjar um estrado especial e montá-lo em 4 mochos. “Mestre” Fio deve ter trabalhado na cama do conhecido historiador, dois ou três dias.
Um homem imenso, não sei como se arranjou Oliveira Lima no Rio Branco de 1919, hospedado, embora, em uma boa casa construída naquele ano ou no anterior. Até alguns anos passados, a grande maioria dos “sanitários” de nossas casas era um quartinho, em meia água, nos fundos de muros, onde não entraria, talvez, o historiador admirável. No tempo em que eu era menino, uma das poucas residências de que eu me lembro, em Rio Branco, que possuía “sanitário” dentro de casa, era a do Dr. Leonardo Arcoverde. Um dia, o nosso velho e saudoso amigo revoltou-se com um matuto que era seu parente e acabou, no “quartinho” do velho chalé, com um pacote inteiro de papel-higiênico, que o dr. Leonardo comprava no Recife. -“Este tabaréu”, dizia do dr. Leonardo à “comadre” Caró, “acostumado a se limpar com uma pedra, acabou com meu papel-higiênico! Que é que eu vou fazer agora, Caró?».

Velhos e Grandes Sertanejos, 1º vol. Recife, 1978 – Luís Wilson. Pág. 359. Cap. 29:
«Augusto de Albuquerque Cavalcanti (Cel. Augusto Cavalcanti)
No mesmo prédio em que ficava o "motor da luz” de Rio Branco, Augusto Cavalcanti tinha também uma fábrica de angico ou de tanino. Lá atrás, com a frente voltada para o Rio da Rua Velha (ou Riacho do Mel), 5 ou 6 banheiros que uma boa velhinha, avó de Zé da Tapioca tomava conta. Eram, na realidade, os banheiros da cidadezinha e era ali ou em “seu” Jé nos jumentos de Bertino (que trabalhava na residência do Cel. Antônio Japyassu e, entre outros, nos de Expedito e Zé Castigo.
A água boa, a água de beber iam buscar na Serra das Varas, uma ou duas vezes por semana.»

Cronologia pernambucana, 2014, Recife, Nelson Barbalho, página 189 - vol.19
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 «O Diário de Pernambuco, de 05 de novembro de 1833,[referência não confirmada em goo.gl/O9WliS ] na seção de anúncios, dizia estar à venda, como novidade na Província, “um banheiro de folha de flandres”. Até então mesmo entre as famílias mais finas da capital ou do interior, o banho mais característico de todos era “o de gamela e o de assento, dentro de casa. O banho de cuia”, como informa Gilberto Freire (Sobrados e Mucambos, I, 196-197) [ goo.gl/7CMpzK ]  que comenta e ensina: “Os anúncios dos jornais da primeira metade do século XIX estão cheios de gamelas, aos pouco substituídas por tipos mais finos de banheiros. Para gente de mais idade, o banho era sempre morno, inteiro ou de assento. Segundo alguns viajantes dos tempos coloniais, -um deles Mawe [ goo.gl/zOgju3 ] - as senhoras dos sobrados abusavam do banho morno; e isto concorria para amolentá-las”. Opinião, também, de alguns higienistas do tempo do Império, que se ocuparam do assunto em teses e dissertações.
Uma das gabolices de alguns sobrados ilustres era que deles escorresse para a rua a água dos banho mornos. Água azulada pelo sabonete fino e cheirando a aguardente de qualidade. Os fidalgos das “casas nobres” se orgulhavam de não feder a negro nem pobre.
Deve-se notar que o sabão, a princípio fabricado em casa, foi um dos artigos que se industrializaram mais depressa no Brasil. Sabão de lavar roupa, branqueada também a anil. Sabão de esfregar o corpo da gente fina e embelezá-lo ainda mais. Importava-se da Europa muito sabão de luxo. No século XIX os negros mais ricos deram para importar sabão da Costa. Um consumo enorme de sabão. A tal ponto que no meado do século XIX, grande parte das fábricas do Império era de sabão.
Quanto à gente dos mocambos, é claro que entre ela o luxo do sabão não se desenvolveu. Nem entre ela nem entre a metralhada das senzalas. O budum, a catinga, a inhaca, o “cheiro de bode” dos negros, em torno da qual cresceu todo um ramo de folclore, no Brasil, deve ter sido o exagero do cheiro de raça, tão forte nos sovacos, pela falta, não tanto de banho, como de sabão, em gente obrigada aos mais duros trabalhos.
Porque de banho, o negro, a gente do povo mulata, e não apenas a mameluca e a cabocla, nunca se mostraram inimigos no Brasil. A tradição de excessivo gosto da água de bica, em regalos de banho ou pelo menos de lava-pés, não se encontra só no Norte; também no Centro e no próprio Sul do País. O moleque brasileiro tornou-se célebre pelo seu gosto de banho de rio. Os jornais da primeira metade do século XIX e até da segunda estão cheios de reclamações contra moleques sem-vergonha, e mesmo homens feitos, que, nos lugares mais públicos, ou ao pé dos sobrados mais nobres, despiam-se de seus molambos, de seus trapos de estopa ou de baeta, e iam tomar banho completamente nus”.
Assunto a que voltaremos a nos referir em capítulo seguinte.
Pelo Agreste e pelo Sertão, o banho preferido de todos era o de rio. Só se tomava banho em casa quando se estava doente. Geralmente, nos rios, havia lugares destinados aos homens e outros destinados às mulheres. Gostava-se, também, e mito, do banho de choque, que diziam se “excelente para os nervos”, e do banho de bica, geralmente tomado pela manhã, pelos homens, que, “para evitar refluxo”, banhavam-se chupando cajus ou laranjas e tomando cachaça. Na época dizia-se que sabão de negro ou de pobre em “caco de telha”, usado para tirar a sujeira grossa do couro. Mulher fina, para evitar olhares indiscretos ou maliciosos de certos homens que se escondem atrás de toupeiras de mato para vê-la banhando-se no rio, muitas vezes em casa, geralmente no quintal, tomava banho de alguidar de barro, usando sabonete importado da Europa e “água-de-cheiro”. Banho de mulher-dama sempre era tomado às escâncaras, impudicamente.
Nas casas agrestino-sertanejas não havia banheiros nem gabinetes sanitários. Via de regra, defecava-se no mato, “por trás das bananeiras” cuja folhas às vezes eram utilizadas para o asseio anal. Também na cidade, segundo Gilberto Freire (Ob.Cit.I, 198),
“… o grosso do pessoal defecava no mato, nas praias, no fundo dos quintais, ao pé dos muros e até nas praças. Lugares que estavam sempre melados de excremento ainda fresco. Luccock diz: “thickly strewed with ever fresh abominatios”.  Isso sem falarmos da urina, generalizado como era o costume dos homens de urinarem nas ruas; e de nas ruas se jogar a urina choca das casas ou dos sobrados sem quintal. A 03 de março de 1835, apareceu no Diário do Rio de Janeiro,[referência não confirmada em goo.gl/uGdE8Y]  esta reclamação típica: “Já há tempos que se roga aos vizinhos que ficam na Igreja de s. Jorge, da parte da Rua da Moeda, que houvessem de não deitar na rua, à noite, águas imundas e urinas chocas, e que ainda continuam; portanto por este anúncio se torna a rogar, prevenindo de que se tornarem a continuar se representará ao juiz competente, pois que basta a estação em que estamos de grande calor e ainda sofrer dos mais vizinhos semelhante mal pestífero saúde dos mesmos”.
O hábito de defecar de cócoras, à maneira dos índios, de tal modo se generalizou não só entre a gente rural como entre a população mais pobre das cidades, que ainda hoje há brasileiros distintos, de origem rural, ou então humildes, incapazes de se sentarem nos vasos sanitários; só acham jeito de defecar pondo-se de cócoras sobre a tampa do W.C., que às vezes deixam toda emporcalhada. Daí serem tão raros, no Brasil, os W.C públicos limpos ou asseados. Mesmo em algumas casas de família, nas cidades já saneadas, não se concebe que os W.C. possam ser lugares limpos, inteiramente diversos dos seus predecessores; as “casinhas” com simples barris sem o fundo enterrados até o meio sobre uma fossa. O uso desses barris, em “casinhas” distantes do sobrado ou da casa, generalizou-se nas casas suburbanas da segunda metade do século XIX.
Nas aldeias públicas do Agreste e do Sertão, os presos “se aliviavam”, isto é, defecavam e urinavam em barris denominados de “cuba”, os quais ficavam cheios durante o dia e, à noite, eram conduzidos pelos presos pobres para os matos ou para beira do rio, onde se fazia o despejo das fezes e urinas, retornando a “cuba”, com catinga e tudo, para servir de “sanitário” da cadeia no dia seguinte.»

Gazeta da Tarde – RJ, 01-11-1896, 2ª col. goo.gl/epzWIe . Anúncio de papel higiênico.


«WATER-CLOSET

Papel higiênico e medicinal para water-closet. Este papel é perfeitamente puro e adequado ao fim que se destina. Este papel é perfeitamente puro e adequado ao fim que se destina. É sabido que em grande parte as moléstias hemorroidárias são devidas ao uso do papel ordinário, sobretudo do branco que, além da impressão com tintas oleosas e ácidas, contem geralmente substâncias nocivas, como sejam: o vitríolo, cal, potassa etc., que se empregam para branquear o papel. O presente papel é o único até agora feito que preenche as qualidades de pureza necessárias, é macio e se dissolve facilmente na água, de sorte que não há perigo de entupir os canos do esgoto, como acontece com outros papéis de qualidade ordinária.»

Diario de Pernambuco, 17-07-1921, 4ª col. goo.gl/tzvNF2 . Descarte de papel na descarga  - Salubridade das habitações


«Salubridade das habitações

A Repartição de obras públicas, algas e esgotos pede-nos a divulgação do seguinte:
"A obstrução da canalização de esgotos deve ser evitada de um modo sistemático; e, com os novos serviços, a obstrução é sempre evitável, salvo os casos de coagulação da gordura aderente à superfície interior das canalizações, quando ela se dê independentemente dos cuidados recomendados.
O uso do papel higiênico se deve generalizar, e os papéis servidos devem ser lançados à latrina, para serem removidos com as descargas das respectivas caixas de lavagem, sem o menor receio de que causem obstrução. O uso de papéis de outra natureza, e, porém, condenado pela higiene e é proibido lançá-los nos aparelhos. Deixar os papéis servidos, de qualquer natureza, em caixões, em cestos, expostos às moscas, que neles pousam e deles voam para pousarem nos alimentos é uma prática condenada pela higiene e só um qualificativo merece, tão expressivo que desnecessário se faz repeti-lo. Lançar no esgoto trapos, lixo, terras, cinzas, resíduos de alimentos crus e cozidos, pós de café, e outras substâncias estranhas ao serviço dos esgotos, são práticas que se não podem mais justificar pela ignorância; elas resultam geralmente do desleixo. A "Dona de casa" não se pode eximir da responsabilidade pelo asseio da habitação e pela boa manutenção do serviço sanitário; a falta de assistência doméstica é evidente na maioria dos casos, mas, como justificação do que se observa de irregular, alega-se a ignorância e o desleixo dos criados. Uma parcela do tempo que sobra para a vida mundana deveria ser mais vantajosamente empregada nos cuidados da vida doméstica, para felicidade hígida do lar; com o bom exemplo, vindo do alto, os criados seriam cuidadosos e as crianças se educariam na prática dos princípios sãos, tão úteis para o seu futuro adulto e tão necessário à comunhão social. Bem escreve Agostinho de Campos: - "Casa de pais, escola de filhos". O mestre deve ser o continuador na prática destes bons princípios trazidos do lar, de entre eles a higiene; estes princípios devem ser então desenvolvidos na escola, singelamente, evitando-se definições pedantes da didática moderna. Não é por meio de livros decorados e repetidas, enfadonhas para crianças, talvez contraproducentes, não é com esse método de ensino que se formarão mulheres e homens asseados, sadios, virtuosos, inteligentes e úteis à família. O esgoto de uma casa é comparável ao intestino do organismo animal: o médico, ao tratar um doente, cuida logo do desembaraço intestinal; é preciso também, em certos casos, indagar do funcionamento intestinal do prédio. A casa doentia faz os moradores doentes, e não há drogas que curem estes sem que seja aquela previamente curada, isto é, saneada. Para sanar um prédio não basta que se lhe deem água potável e esgotos perfeitos. A muitas outras condições atender, e de entre elas citamos apenas a boa iluminação solar e a ventilação natural, em todos os compartimentos e especialmente nos de dormida, nos de trabalhos diurnos e nos gabinetes sanitários. Se isto não se puder conseguir nos estreitos e compridos prédios antigos, de vários pavimentos, infestados de alcovas - esses prédios devem ser condenados por insalubridade: - são casas assassinas, no dizer do eminente arquiteto francês. - Recife, outubro de 1916. - S.R. de Britto; »